Até a próxima

Até a próxima
MEAK
C15
Lish está no banheiro. Sentou-se na privada, que está com a tampa fechada. Está apenas de calça, e esta está com muito sangue. Está mexendo em uma ferida. Geme. Para. Volta a mexer. Tira algo de metal de dentro de si. Respira fundo algumas vezes. Levanta, vai até a pia devagar. Abre a torneira. Passa o pedaço de metal embaixo da água. Fecha a torneira. Batidas na porta.
Tá tudo bem aí? (Derik)
Lish coloca o anel de Canis no dedo. Olha contra a luz da janela.
Melhor agora. (Lish)
Ah, desculpa, não achei que o barulho fosse... (Derik)
Lish abre a porta. Derik arregala os olhos.
... porque tomou um tiro dentro do banheiro... (Derik)
Lish levanta a mão. Derik olha o anel.
Aqua te protegeu? (Derik)
O anel. Aléxis colocou dentro de mim. (Lish)
Derik contorce o rosto.
Cê podia ter pedido ajuda, podia rolar até uma anestesia... (Derik)
Desnecessário. (Lish)
Você realmente mudou. (Derik)
Michele achava legal cenas de auto-cirurgia em filmes. (Lish)
Não. Acabou de estragar sua calça. (Derik)
Lish olha para baixo. Olha para Derik.
É preta. Não vai dar pra ver as manchas. (Lish)
Quer uma ajuda pra fechar isso aí ao menos? (Derik)
Lish olha para a ferida.
Seria bom... (Lish)
O corpo de Lish fraqueja e Derik segura. Ajuda Lish a chegar ao sofá.
Eu vou buscar agulha e linha. (Derik)
Tem material cirúrgico aí? (Lish)
Tenho uma panelinha especial pra ferver esse tipo de coisa, mas tá meio tarde pra perguntar disso, né? Usou o que, uma faca de cozinha? (Derik)
Tava limpa. (Lish)
Derik balança a cabeça para os lados.
Era pra ter sido uma piada... (Derik)
Derik sai da sala. Lish se deita no sofá.
Rust coloca um livro sobre uma pilha. Está no chão, sentou-se. Etos está na mesa de livros. Olha para Rust.
Esse aí é o último, né? (Rust)
Quase no final. (Etos)
Nada? (Rust)
Não. (Etos)
Rust suspira.
Queria que tivesse um jeito de ajudar Katerine. (Rust)
Rust coloca a mão em seu bracelete.
Não é justo que tenha um jeito pra mim e não tenha pra Katerine. (Rust)
Não são os últimos livros do mundo. (Etos)
Mas são os últimos aqui. (Rust)
Etos fecha o livro.
Vai ajudar o pessoal da MEAK com Padoi. (Etos)
E você? (Rust)
Vou revisar tudo. A gente pode ter deixado alguma coisa passar. (Etos)
Rust levanta do chão.
Boa sorte. (Rust)
Rust vai em direção a porta. Etos lhe segura o braço. Se aproxima e beija Rust. Passa a mão no rosto de Rust.
A gente vai conseguir resolver isso. (Etos)
Rust se afasta e sai. Passa por Deoclides, que dança no jardim. Sai do jardim. Olha para trás. Baixa a cabeça. Segue andando.
Hera. Kat sai do barco, com uma mochila. Vai até Fábio, que está na praia.
A gente não consegue ver no fundo do lago mas, apesar do clarão, parece tudo normal. (Fábio)
Mas não tá. Edmont saiu. (Kat)
Como assim?! (Fábio)
Protegeu Inês de Padoi. Aí caiu. Já cortei e sai sangue. (Kat)
Então Padoi tá livre mesmo? (Fábio)
Sim. Pelo mundo. Não sabemos o que foi Zenon, o que foi Padoi. Soraia te mandou? (Kat)
Fábio baixa a cabeça.
O vídeo de Zenon? (Fábio)
Não ficou feliz assistindo? (Kat)
Eu devia. Mas nem coragem de assistir eu tive. (Fábio)
Não devia, não. (Kat)
Fábio olha para Kat.
Vingança e felicidade com a morte são coisas ruins no final das contas. Falhas compreensíveis, mas mancham a gente. (Kat)
Mel falou algo parecido pra mim. (Fábio)
Você já é mais atlante que eu. Adoraria arrancar fora a cabeça de Padoi com meus dentes. (Kat)
Fábio engole seco.
Como estão as crianças? (Kat)
Vem comigo. (Fábio)
Floresta de Ares. Fábio baixa perto da pedra no chão. Kat franze a sobrancelha. Ajuda Fábio a tirar a pedra. Fábio desce, por uma escada de pedras. Kat desce junto. O lugar agora tem luz elétrica nas colunas. Existe uma parte fechada por vidros. Beleno levanta, está em frente. Kat franze de novo a sobrancelha. Se aproxima. As estátuas das crianças estão dentro.
Merda. (Kat)
Que foi? (Fábio)
Têm certeza que Andrea... Morreu? (Beleno)
Sim. (Kat)
Kat tira a mochila. De dentro, tira um jarro. Beleno vem até Kat e pega o jarro.
Se desfez em cinzas. (Kat)
Edmont também, várias vezes. Talvez volte. Só Inês podia matar Andrea. (Beleno)
A merda é: se Andrea de fato morreu, não sendo pelas mãos de Inês, será que vamos conseguir trazer as crianças de volta? (Kat)
Se Inês é catalizador, talvez a gente consiga descobrir alguma coisa ainda. (Fábio)
Kat coloca a mochila de volta nas costas. Olha para Beleno.
É uma boa ideia você ficar aqui guardando as crianças. De repente tem algo a ver com o feitiço ser diferente. (Kat)
Kat volta a escada.
E se for a forma que morre? (Beleno)
Kat olha para Beleno.
Shy bebeu o sangue de César. (Beleno)
Fábio arregala os olhos.
Shy bebia sangue. Inês não se alimenta de cinzas. (Kat)
Não quero ser a pessoa que vai dizer a Inês pra tentar comer as cinzas de alguém, principalmente alguém com quem tinha essa proximidade. (Fábio)
Queimar as cinzas. (Kat)
Como assim? São cinzas, cinzas não são combustíveis, não queimam. (Beleno)
Andrea virou isso porque Padoi lhe bebeu o sangue. Não queimou, só desfez. (Kat)
A gente pode tentar. (Fábio)
Depois que o problema que causou isso tudo for resolvido. (Kat)
Kat continua em direção a escada. Fábio segue. Beleno abre a porta de vidro, entra, coloca o jarro dentro, perto de Vivian, sai e fecha.
Kat está na praia. Entra no barco. Olha para Fábio.
Vai mesmo ficar aqui? (Kat)
Tô tentando convencer Soraia a vir. (Fábio)
Mas isso pode fazer de outro lugar. (Kat)
Se convencer, vou pedir a alguém pra trazer. Aí vou com Dionísio ajudar vocês. (Fábio)
Talvez não precise. Eu e Lish vamos atrás. (Kat)
Cuidado. E boa sorte. (Fábio)
Valeu. (Kat)
Kat entra no barco.
Derik está no sofá, dormindo. Trinity entra. Derik abre os olhos. Limpa a boca, senta no sofá.
Por que não dorme na cama? (Trinity)
Do lado de Edmont? (Derik)
Tinha esquecido. (Trinity)
Você tem raiva de Edmont? (Derik)
Depois de ter tido que tomar conta de Zenon, não mais. Edmont me transformou, mas pelo menos de Edmont todo mundo sabe o que esperar. (Trinity)
Trinity olha para o quarto.
E saiu do lago pra salvar Inês. (Trinity)
Trinity olha para Derik.
Aliás, cadê Inês? (Trinity)
Foi no mercado comprar mantimentos, preciso fazer um suco reforçado pra... (Derik)
Derik levanta do sofá. Vai até o quarto, abre a porta. Apenas Edmont na cama. Olha para Trinity.
Que foi? (Trinity)
Lish entra na MEAK. Está com o rosto um pouco vermelho. Derik suspira.
Que foi? (Lish)
O que você fez foi bem sério, sabia?! (Derik)
Eu sei. Não tomei analgésico exatamente pra saber o quanto tá ruim ainda. (Lish)
Ótimo. (Derik)
O que fez que foi sério? (Trinity)
Tirou o anel de Canis que Aléxis achou que fazia mais sentido enfiar dentro do corpo que botar no dedo. (Derik)
Nota mental: nunca pedir alguém com muitos séculos de idade em casamento. (Trinity)
Trinity olha para o dedo de Lish. Franze a sobrancelha.
Você falou em fazer alguma coisa pra comer. (Lish)
Trinity olha para o rosto de Lish.
Você não tá meio... (Trinity)
Pois é, era disso que eu tava falando, parece que foi correr uma maratona! (Derik)
Foi o sol. (Lish)
Mas sua pele não parece que queima tão... (Trinity)
Não queimava. (Lish)
Trinity abre mais os olhos.
Talvez fosse uma boa ideia deixar trabalhos diurnos para o resto das pessoas. (Edmont)
Derik arregala os olhos. Trinity abre a porta do quarto.
Pode voltar a respirar, Derik. Mal consigo me mexer aqui. (Edmont)
Vai ver é castigo. (Kat)
As pessoas olham para Kat. Inês entra em seguida, com sacolas. Inês olha para as pessoas.
Que foi? (Inês)
Tô ouvindo bastante isso hoje. (Derik)
Derik pega as sacolas.
Valeu. (Derik)
Eu te ajudo. (Inês)
Derik e Inês vão para a cozinha. Kat, Lish e Trinity entram no quarto.
O que houve? (Kat)
Inês tá bem? (Edmont)
Você já sabia que Inês era Handhara? (Kat)
Inês não é Handhara, Kat. Reencarnou. Viveu outras coisas. (Edmont)
Mas sabia. (Kat)
Não pude proteger Handhara. Por isso queria manter Inês ao meu lado, em segurança. (Edmont)
Mas Inês é sua cria, isso é meio... (Trinity)
Atração eu sinto por um corpo. Querer ajudar alguém, cuidar de alguém. Isso não depende do sangue. (Edmont)
Como o que Mel tinha com Fábio. (Trinity)
Edmont sorri.
Quer dizer que tá me achando legal agora? (Edmont)
Vai a merda. (Trinity)
Trinity sai do quarto.
Cadê Beatrice? (Edmont)
Morreu. (Kat)
Edmont senta na cama. Olha para Kat por um segundo. Volta a deitar. Vira de lado, para a janela. Kat sai. Lish segue e fecha a porta. Kat senta no sofá, ao lado de Trinity. Lish senta no outro sofá.
A gente vai sair pra procurar Padoi? (Trinity)
Não sei o que Edmont chegou a fazer, mas Padoi deve estar tentando se recuperar ainda. (Kat)
Joguei longe pela janela. (Edmont)
Deve ter se machucado, ou teria voltado. (Kat)
Se antes o sangue poderia me afetar, acho que agora não pode mais. (Lish)
E se a gente fingisse que sou eu quem vai derrubar Padoi? (Kat)
Tipo, vocês lutam, derrubam, você morde e Lish também? (Trinity)
Tem uma coisa que eu não disse. (Inês)
Inês vem da cozinha. Senta-se ao lado de Lish.
Padoi tem uma obcessão por Mel. (Inês)
Como assim? (Kat)
Lembra que Rust disse que Mel perdeu o controle? (Inês)
Sim. (Kat)
Padoi veio aqui dizendo que Mel é a coisa mais perfeita que já viu. Sem o controle. (Inês)
Não sabe que Mel morreu? (Lish)
Kat olha para a porta do quarto.
Edmont já tinha voltado da morte antes. (Trinity)
Kat olha para Trinity.
Padoi precisa saber que eu também tenho o que viu em Mel. (Kat)
Inês arregala os olhos. Kat olha para Inês.
Não pretendo soltar isso. Mas Padoi não precisa saber dessa parte. (Kat)
Kat está no sofá. Franze a sobrancelha. Vai até a cozinha. Abre a gaveta. Pega uma faca. Pousa na pia. Abre o armário. Pega um copo. Pousa ao lado da faca. Derik entra na cozinha. Franze a sobrancelha.
Tá querendo cozinhar? (Derik)
Mel fez um feitiço antes de ir. (Kat)
Que feitiço? (Derik)
Não sei. (Kat)
Como sabe disso? (Derik)
Não sei. (Kat)
Umas coisas... Que você sabia, sobre ser atlante... (Derik)
Não faço ideia, Derik. (Kat)
Angely passou a saber coisas de Edmont. (Derik)
Mas Angely e Edmont dividiram até o útero. (Kat)
Você esteve no útero de Mel. (Derik)
Não sei. (Kat)
Bom, se for algo, a gente deve descobrir com o tempo. (Derik)
Lish entra na cozinha.
Como a gente vai achar Padoi dessa vez? (Lish)
Pensei em pedir ajuda a Zeiro. (Kat)
Rust disse que conseguia saber onde Andrews tava, lá na outra Realidade. Será que Clítia não tem nenhuma pista? (Derik)
Depois do feitiço de purificação? (Lish)
Tem razão. (Derik)
Liga pra Fábio. Ainda tá nas ilhas, quer convencer Soraia a ir pra lá. (Kat)
Pra proteger? (Lish)
Sim. (Kat)
Talvez fizesse sentido. (Lish)
Não se a gente tirar pégasus de lá pra procurar Padoi. (Derik)
Não precisamos de todo mundo. (Kat)
Kat está no alto do prédio da MEAK, sentou-se. Zeiro pousa. Kat se levanta.
E aí? (Kat)
Não achei Padoi ainda. Mas percebi Rust vindo para cá. (Zeiro)
Trinity tinha me dito que Rust estava com Etos procurando alguma coisa. (Kat)
Quer que traga? (Zeiro)
Vocês não costumam avisar essas coisas, melhor não. Rust consegue chegar sem ajuda. (Kat)
Ok. Vou continuar procurando. (Zeiro)
Zeiro começa a bater as asas. Levanta voo. Kat vai até a porta e desce as escadas. Entra no andar, passa o corredor, entra na MEAK. Derik está no sofá, dormindo. Kat suspira. Vai ao quarto. Senta na cama. Edmont está olhando para a janela.
Jogamos as cinzas no lago. (Kat)
O que houve? (Edmont)
Achamos que Beatrice se matou. (Kat)
Por que faria isso? (Edmont)
Talvez por causa de Mel. Talvez por causa de vocês três. (Kat)
Estava com Angely por último. (Edmont)
Aí sumiu, se entupiu de vinagre pra ninguém achar. Sabemos que falou com Aqua, e que Kassandra tinha as cinzas, não sabemos o porquê. (Kat)
Edmont se senta e vira para Kat, franzindo a sobrancelha.
Foi Kassandra quem disse que as cinzas eram de Beatrice? (Edmont)
Sim, eu sei, mentiras são a especialidade, mas aparentemente Rust confirmou. (Kat)
Mas quem achou as cinzas, Kassandra ou Rust? (Edmont)
Você não conseguiria saber se Beatrice vive? Com todo o poder que tem? Ou não está forte o suficiente? (Kat)
Edmont se deita na cama e vira para a janela de novo. Fecha os olhos. Vê Angely, no fundo do lago, dormindo.
Não vai me impedir pra sempre. (Edmont)
Kat suspira. Levanta e sai. Na sala, Derik está no sofá, corpo virado para cima, com os braços ao lado do corpo. Seus olhos se movem rápido. Kat se aproxima.
Derik, o que tá acontecendo? (Kat)
Centro antigo. Prédio abandonado, ao lado... (Derik)
Derik abre os olhos e senta de uma vez.
Acho que vi você, mas... (Derik)
Já aconteceu comigo, mas foi em sonho comum. Algum som do mundo real entrar no sonho. Você começou até a me responder dormindo. Das vezes que aconteceu comigo, me dei conta uma hora e acordei. Acontece mais com som de alarme. (Kat)
Tem razão. Já aconteceu comigo também. (Derik)
Viu Padoi? (Kat)
Tá numa ocupação. (Derik)
Machucou alguém? (Kat)
Não. Acho que vai tentar usar as pessoas pra se proteger da gente. (Derik)
Merda. (Kat)
Estão cuidando dos ferimentos. Edmont deixou Padoi realmente mal. (Derik)
Não sei se rezo pra Edmont ficar melhor rápido ou pra nunca acontecer. (Kat)
Vamos pegar Padoi? (Derik)
A gente precisa atrair pra fora. (Kat)
Tem muita criança lá dentro. (Derik)
Kat fecha os olhos. Suspira. Abre os olhos.
A humanidade tá podre. (Kat)
A gente podia começar a ajudar essas pessoas também. (Derik)
Talvez. Talvez fosse até mais útil. (Kat)
Kat levanta.
No momento, a gente precisa fazer com que deixem de ser escudos humanos. Sem saberem que somos nós. Padoi mostrou alguma imagem nossa? (Kat)
Só descreveu. (Derik)
Kat baixa a cabeça. Mexe nos olhos. Olha de novo para Derik, suas íris estão roxas. Derik levanta.
Não sabia que isso tinha acontecido. (Derik)
Mel não tinha isso só quando acontecia. Tinha desde criança. Pintava o cabelo, usava lentes, como estou usando. Só que, nos ataques... (Kat)
A tinta e as lentes desfaziam. (Derik)
Não sei se quero ficar escondendo isso. Do que eu deveria ter vergonha? (Kat)
Nada. (Derik)
Derik toca o rosto de Kat. Kat beija Derik. Afasta.
Onde Lish foi? (Kat)
Tentando achar Padoi. (Derik)
Manda mensagem, vou no tal prédio. Me manda a localização, avisa Lish e Trinity pra me encontrarem lá. (Kat)
Derik olha para a janela, olha para Kat. Kat fecha os olhos, suspira, abre.
Tá de dia. (Kat)
Acho que Lish tá voltando a ser o que era. (Derik)
Eu vou lá. Vou tentar do jeito mais difícil então. (Kat)
Quer convencer Padoi a vir por livre e espontânea vontade? (Derik)
Talvez funcione. (Rust)
Rust entra.
Mas vai ter que ser de noite. (Rust)
Por que? (Derik)
Se quiser convencer Padoi de que não vai matar. (Rust)
Rust se aproxima e olha nos olhos de Kat. Kat desvia o olhar.
Não sei se esse é o plano. (Rust)
O plano é qualquer coisa que consiga dar fim nisso. (Kat)
Você não tá com a coisa. Quando os olhos mudaram? (Rust)
Acordei um dia e estava assim. (Kat)
Mel na verdade... (Derik)
Eu sei. Katerine. (Rust)
Kat olha nos olhos de Rust.
Eu vou junto com você. Vou te proteger. (Rust)
Trinity e Lish vão, vão ajudar. (Derik)
Rust não tá falando de me proteger de Padoi. (Kat)
Derik engole seco.
Noite. MEAK. Lish e Trinity estão na sala. Kat sai do quarto. Rust vem atrás.
Não me diz que a gente vai levar Edmont junto. (Trinity)
Não. Edmont não tem forças nem pra fazer um sanduíche no momento. (Kat)
Já se alimentou? (Trinity)
Kat franze a sobrancelha e olha para dentro. Olha para Trinity.
A menos que tenha feito isso vindo de Hera pra cá... Derik! (Kat)
Derik sai do quarto.
Tem Daxlidan aí? (Kat)
Quer que eu faça pra Edmont? (Derik)
Antes pergunta se vai tomar. (Kat)
Derik entra no quarto.
Tem o endereço do prédio? (Trinity)
Temos. (Rust)
Kat sai, Lish segue.
Agradeço por ter salvo Etos. (Rust)
Não fiz por você. (Trinity)
Eu sei. Mas não precisa ter feito por mim pra isso ser bom pra mim. E eu não... (Rust)
Por que virou isso? Você era atlante. E transformou Virgine nisso. (Trinity)
A humanidade não parece uma vítima tão indefesa depois que queimam alguém que você ama na sua frente. (Rust)
Trinity engole seco.
Foi a sua mãe, não foi? (Trinity)
Doki tentou salvar, mas não conseguiu. Não faz ideia do que foi ver o olhar de terror da pessoa que queimou Nandé depois. Era a outra metade no meu material genético. Bebi todo o sangue. (Rust)
Minha mãe foi morta pelo meu pai também. (Trinity)
Posso te ajudar com isso, se quiser. (Rust)
Minha mãe pelo menos não sentiu dor, foi instantâneo. (Trinity)
Rust olha para baixo.
Deve ter sido horrível ver Nandé gritar. (Trinity)
Não gritou. (Rust)
Trinity franze a sobrancelha. Rust olha para Trinity, com os olhos marejados.
Nandé saiu da igreja se debatendo, mas parou quando me viu, sorriu. Começou a cantar uma música. Cundae, ere so. Anari, ere so. Anari, ere so. Cundae. (Rust)
O que quer dizer? (Trinity)
A tradução fica estranha. Cundae é algo tipo saber, ere seria bem. So é algo como dizer que alguma coisa é melhor. Anari é sempre. (Rust)
É bonito. (Trinity)
Mas não parou o fogo. Nandé cantou até perder as forças. Baixo o suficiente para só eu ouvir, quase sem mexer a boca. Se manteve forte pra criança que estava ali, coisa que ninguém ali se importava. Aquela desgraça de padre, que me botou no mundo, sem ninguém saber disso, pra não sujar a reputação, achava que isso me mostrar a diferença entre bem e mal. E mostrou. Eu devolvi a lição mais tarde. (Rust)
Rust sai. Trinity segue.
Lish, Kat, Trinity e Rust chegam em frente ao prédio. Rust está carregando algumas sacolas grandes. Kat está de óculos escuros. Uma pessoa com uma barriga grande vem até Kat.
Oi, tudo bem? (Emanuelle)
A gente tá procurando uma pessoa, disseram que estava aqui. (Kat)
Tem bastante gente aqui... (Emanuelle)
Conhece alguém de nome Padoi? (Lish)
Não sei... (Emanuelle)
Ludmila, uma criança de 4 anos, vem correndo e abraça Emanuelle.
Vocês estão com fome? (Trinity)
Emanuelle olha para Rust. Rust vai com as sacolas até Emanuelle, pousa no chão, pega uma das sacolas e abre, para mostrar. Há um pacote de arroz.
Está meio pesado, quer que leve para dentro? (Rust)
É pra gente? (Emanuelle)
Não estamos tentando comprar vocês. Na verdade, pode dizer a Padoi que pode vir falar conosco apenas se quiser. (Lish)
Kat tira os óculos.
Fala que me viu, Padoi vai querer vir. (Kat)
Emanuelle olha para Kat e abre mais os olhos.
É só uma alteração nos olhos, Padoi vai reconhecer quando você disser. Foi feito em médico, não é nada anormal. (Trinity)
Emanuelle sorri.
Mas ficou bonito, né? (Emanuelle)
Kat sorri.
Agradeço. (Kat)
Emanuelle olha para as sacolas.
A gente que agradece... (Emanuelle)
Trinity mexe em uma das sacolas, pega um chocolate e entrega a Ludmilla. Ludmilla pega e sorri. Vai para dentro. Emanuelle entra, Rust segue, com as sacolas.
Será que dá pra quanto tempo essa comida? (Trinity)
Não sei. Mas não vai ser a última vez que venho aqui. (Kat)
Esperam. Padoi olha pela janela. Kat franze a sobrancelha, olha para cima. Lish e Trinity olham também, mas Padoi já saiu da janela. Kat dá um passo para entrar, Trinity segura seu braço.
A gente não vai querer fazer isso aqui. (Trinity)
Kat suspira. Lish olha o cabelo de Kat, as pontas estão vermelhas. Trinity larga o braço de Kat. Rust sai.
Ouviu alguma coisa? (Trinity)
Acho que está aí mesmo. (Rust)
Acabei de ver na janela. (Kat)
O que a gente vai fazer? (Rust)
Kat olha para Trinity. Olha novamente para a janela.
Esperar. (Kat)
Padoi sai do prédio. Kat coloca o óculos de volta. Padoi se aproxima lentamente de Kat. Rust se coloca na frente. Padoi olha para Rust.
Você estava lá quando aconteceu. O maior milagre que já presenciei. (Padoi)
Inês te disse que Mel morreu. (Lish)
Minha condição pra falarmos é estarmos longe daqui. (Kat)
E se eu não quiser? (Padoi)
Kat se vira e segue andando. Trinity segue. Depois Lish. Padoi suspira e segue também. Rust vai atrás de Padoi.
Billings. Kat está olhando a represa. Padoi lhe olha. Rust, Trinity e Lish estão um pouco longe. Kat se vira para Padoi.
Porque acha que Mel vive? (Kat)
Por que acham que morreu? (Padoi)
Mel é atlante. Eu testei. (Kat)
Por isso a perfeição? (Padoi)
Izikaum. (Rust)
Rust se aproxima.
O que quer dizer? (Padoi)
O que você quase soltou em Melody. Mas Melody morreu a tempo. (Rust)
Ainda estou me perguntando se querem me enganar ou se foram enganados. (Padoi)
Você quem está se enganando. (Rust)
Padoi sorri.
Zenon me disse que Mel está viva. (Padoi)
Deve ter te dito pra te enganar. (Rust)
Como tem certeza? (Padoi)
Depois que você perdeu a consciência, e achei que tinha morrido, eu atravessei Melody com a espada. (Rust)
Padoi desfaz o sorriso.
Do que está falando?! (Padoi)
Eu matei Melody, pra não deixar se perder. (Rust)
Padoi vai na direção de Rust. Kat se coloca na frente, Padoi pega Kat e atira na represa. Lish corre em direção a represa, corre na água, mergulha. Padoi continua na direção de Rust, Rust tira uma estaca, Padoi lhe segura o braço, dá um soco. Trinity tenta chutar Padoi, Padoi segura o pé e joga Trinity no chão. Trinity vai se levantar, Padoi sobe em cima e morde Trinity, que grita. Rust crava a estaca no peito de Padoi, Padoi grita, sai de cima de Trinity. Lish sai da água, coloca Kat inconsciente na beirada. Olha para Trinity. Olha para Rust. Rust balança a cabeça para os lados, pega Trinity no colo e corre dali. Lish olha para Padoi. Senta em cima de Padoi, puxa, sentando Padoi. Seus caninos crescem. Lish morde Padoi, que grita. Lish continua bebendo o sangue. Padoi perde as forças. Solta o corpo. Lish tira os dentes e solta Padoi. Levanta e limpa a boca com as costas da mão. Vira para Kat. Arregala os olhos. Uma estaca atravessou seu peito.
Você é linda. Mas não tanto quanto Melody. (Padoi)
Padoi ri. Lish se vira.
Você não chega aos pés de Melody. (Padoi)
Não estamos no mundo pra um concurso de agradar homem. (Lish)
Padoi puxa e morde Lish. Lish grita. Tenta empurrar Padoi. Padoi abraça Lish, continua bebendo o sangue. Lish vai perdendo as forças. Fecha os olhos. Solta o corpo. Padoi tira a boca do pescoço de Lish. Lambe os lábios.
Sangue de Aléxis... Sangue de Lish... Beber da origem é definitivamente infinitamente melhor. (Padoi)
Padoi deita o corpo de Lish no chão, com delicadeza. Passa-lhe a mão no rosto.
Pena que não quer ficar a eternidade ao meu lado. Mas eu acho que o sangue de Katerine será melhor que o seu, não é, meu anjo? (Padoi)
Padoi olha para Katerine, que lhe olha fixamente, de pé. O roxo dos olhos quase brilha. Seus cabelos estão completamente vermelhos.
Com o poder que você tem, não duvido que consiga trazer de volta mortos. (Padoi)
Lish está descansando. Mel também. E você nunca mais vai encostar. (Kat)
Eu posso fazer o que você me ordenar. (Padoi)
Padoi vai até Kat e ajoelha.
Só me deixe te servir. (Padoi)
Levanta. (Kat)
Padoi se levanta. Vira o pescoço de lado. Kat toma um dardo no pescoço. Padoi olha para Rust. Rust rosna. Padoi engole seco. Sai correndo. Rust se aproxima de Kat. Se abaixa. Abre de leve a boca. Os caninos estão normais. Rust se deixa cair no chão. Olha para Lish. Senta-se. Levanta. Vai até Lish e pega as mãos. Não há mais anel. Coloca as mãos na frente do rosto.
Aqua... (Rust)
Kat abre os olhos. Está sol. Kat levanta, olha ao redor. Pega o telefone. Digita. Coloca na orelha.
Onde você tá?! (Derik)
Onde Rust me largou, não apareceu aí? (Kat)
Sim. Com... Lish... (Derik)
Eu sei. Quero saber porque diabos Rust me derrubou quando eu ia matar Padoi! (Kat)
Quê?! (Derik)
Aquela desgraça se rendeu! (Kat)
Não acha isso estranho, Kat? (Derik)
Rust salvar Padoi?! Muito! (Kat)
Pode ser... (Derik)
Kat desliga o telefone. Corre.
Madrugada. Kat está andando pela cidade. Olha para uma pessoa toda coberta. Segue. Acabam em um beco. A pessoa tira o capuz. Vira e lhe sorri.
Seu amigo não está aqui para interromper dessa vez. (Padoi)
Tomara que não. Porque não vou cair dessa vez. (Kat)
Padoi se aproxima de Kat. Os caninos de Kat crescem. Kat morde Padoi. Seu cabelos ficam de um vermelho tão vivo que quase parece fogo. Kat bebe o sangue. O corpo de Padoi começa a ceder, Kat segura. Bebe mais um tempo. Para. Solta o corpo de Padoi. Lambe os lábios, o roxo de seus olhos totalmente acesos. Vira para trás. Rust está com uma espada. Kat rosna.
Eu não queria ter que fazer isso de novo. (Rust)
Kat rosna novamente. Vai na direção de Rust. Rust faz um movimento para enfiar a espada, Kat segura e chuta Rust. Joga a espada longe. Rust corre na direção da espada. Kat está rosnando. Etos segura a mão de Rust. Rust olha para Etos. Kat olha para Etos.
Você não tem que fazer isso. (Etos)
Encontrou alguma coisa? (Rust)
Não, mas vou encontrar. (Etos)
Não tem outro jeito de parar Katerine agora. (Rust)
Você tem bem mais idade que Kat. (Etos)
E daí? (Rust)
Pode derrubar Kat sem matar. (Etos)
Não posso. (Rust)
Etos coloca a mão no bracelete de Rust.
Seriam duas pessoas descontroladas, não uma só. (Rust)
Vocês quer derrubar Kat, Kat quer te derrubar. Você tem bem mais idade e experiência, sei que vence. E eu te ajudo depois. (Etos)
Mas o que a gente faz com Katerine? E se eu machucar muito? (Rust)
Se fosse Mel, sexo resolveria. Era a válvula de escape que usava muitas vezes. Mas Kat é ace. (Etos)
Etos olha para Kat.
Vai ter que machucar. (Etos)
Rust olha para Kat também. Solta a espada. Etos tira o bracelete. Rust rosna e vai para cima de Kat. Etos olha em outra direção. Olha para a lua. Olha para onde Padoi... Estava. Balança a cabeça para os lados. Olha de novo para Rust. Kat está inconsciente, com diversos cortes, arranhões, ematomas, assim como Rust. Rust está por cima. Deixa o corpo cair sobre Kat. Etos se aproxima, Rust levanta bruscamente. Rosna. Etos tira a camisa. Rust rosna, mais baixo. Olha para Kat. Olha para Etos. Etos começa a assoviar. Se aproxima de Rust. Beija Rust. Coloca o bracelete. Rust fraqueja, Etos segura. Desce ao chão.
Aqua... (Rust)
Não se preocupa com isso. (Etos)
Mas... Beatrice... (Rust)
Padoi não tem o anel. (Etos)
Rust sorri. Fecha os olhos e a cabeça vira para o lado. Etos passa a mão no rosto de Rust. Olha para Kat. Pega o celular.
Antes
Lish entra em uma joalheria. Vai até o balcão. Edgar sorri e vem até Lish, de trás do balcão.
Boa tarde, senhorita Michele! (Edgar)
Boa tarde. Fez o que pedi? (Lish)
Claro! Vou buscar agora mesmo! (Edgar)
Edgar vai para a esquerda, ainda do lado de dentro do balcão, e entra em uma porta. Lish olha os anéis na vitrine. Suspira. Olha para fora. Vira de novo, olhando para a porta. Edgar sai, com uma caixinha de veludo nas mãos, e um sorriso no rosto. Lish pega a caixa, abre. Pega o anel dentro, pousa a caixa no balcão, coloca o anel em uma das mãos. Olha o anel na outra mão, com uma mão ao lado da outra. São idênticos. Tira o que estava na mão já, coloca na caixa, coloca a caixa no bolso, troca o anel novo de mão. Pega a carteira.
Não, não! (Edgar)
Lish olha para Edgar.
Eu soube do que houve com seu pai. O lugar que você morava, a tal epidemia. Sei que dinheiro você tem muito, que herdou tudo do seu pai. Mas esse fica como presente. Quero que saiba que, se precisar de alguém, eu estou aqui. (Edgar)
Lish guarda a carteira.
A epidemia, era coisa fabricada. (Lish)
Como assim? Não é real? (Edgar)
É sim. Quis dizer que não é um acidente da natureza. Ainda tem chance de acontecer alguma coisa. (Lish)
Edgar arregala os olhos. Lish levanta a mão, com as costas da mão viradas para Edgar.
Não tenho como te explicar o valor disso. Então vou te dar um conselho que não tem preço também. Caso você saiba de qualquer coisa estranha acontecendo em alguma cidade perto, caso alguém pareça mais um animal que um ser humano, caso veja alguma aglomeração que não pareça ter justificativa, foge. (Lish)
Lish vira de costas e anda em direção a saída.
Obrigado. (Edgar)
Lish para. Olha para Edgar.
Eu que agradeço. Você não faz ideia do quanto ajudou. (Lish)
Lish sai da loja.
Lish está andando na rua. Para. Olha para trás.
O que está querendo fazer? (Aqua)
Se Padoi conhecer esse anel, vai tentar pegar. (Lish)
E aí vai pegar o anel falso? Pode perceber e pegar do seu bolso. E, se não estiver com você, pode pegar onde estiver, porque tenho que proteger você, não o anel. (Aqua)
Não quero que Padoi tenha poder sobre você. (Lish)
Isso tornaria Padoi quase indestrutível. (Aqua)
Não que isso não seja ruim, mas estou falando de você. (Lish)
Lish senta em um banco de ônibus. Aqua senta ao lado.
Eu vim de uma sociedade onde as pessoas eram livres. De verdade. Todas as pessoas. Já é ruim o suficiente você ter que servir a alguém de alguma forma. Sabe-se lá o que uma pessoa ruim pode querer fazer com você. (Lish)
Mas quem não é alvo de Padoi no momento? (Aqua)
Eu queria te pedir permissão para te dar outra missão. De proteger alguém que realmente não tem defesa, e que não fez nada de errado. Se você quiser continuar comigo, eu não acho que tenho direito a te tirar essa escolha. Escolhas demais já foram arrancadas de você. (Lish)
Aqua olha para o horizonte. Suspira. Olha para Lish. Abaixa a cabeça e volta.
Soraia está colocando malas em um carro, em frente a uma casa. Dionísio sai da casa, coloca a mão na alça, Soraia puxa.
Eu disse pra deixar eu colocar... (Dionísio)
E eu disse que não sou uma grávida simples, ainda tenho sangue de Aléxis correndo nas veias. (Soraia)
Mas isso pode não ser suficiente. (Lish)
Soraia e Dionísio olham para Lish.
Alguma coisa deu errado? (Soraia)
Eu vou tentar derrubar Padoi. (Lish)
Michele, você... (Soraia)
Lish. (Lish)
Suas memórias voltaram, mas isso não quer dizer... (Soraia)
Não foi só memória. Eu voltei por completo. (Lish)
Mas aí não poderia sair no sol. (Soraia)
Não foi a coisa mais confortável a última vez que saí. (Lish)
Dionísio engole seco. Lish tira a caixa de veludo do bolso. Estende a Soraia. Soraia pousa as malas no chão. Pega a caixa. Abre. Olha para a mão de Lish.
Fiz uma cópia. Caso Padoi conheça, vai achar que pegou o anel. Acho que Zenon falou do anel para Padoi. E se ninguém souber onde está, vai ser mais seguro. (Lish)
Não quero alguém me servindo desse jeito. (Soraia)
Falei com Aqua. Na verdade, o que me veio a cabeça é que as outras crianças estão protegidas. (Lish)
Soraia coloca a mão na barriga. Tira o anel da caixa, entrega a caixa a Dionísio, coloca o anel no dedo. Franze a sobrancelha, olha para trás, Aqua está com um joelho no chão, outro dobrado, com o pé no chão, cabeça e costas curvadas em direção a Soraia.
Não faz isso. (Soraia)
Aqua se levanta.
Pode me proteger e proteger minha criança, mas não precisa agir como se me pertencesse. (Soraia)
Agradeço. (Aqua)
Padoi não vai colocar as mãos em você. (Lish)
Aqua olha para Lish.
Não importa o que a gente precise fazer pra isso. (Lish)

Dara Keon