Fortaleza
MEAK
C06

Fortaleza ler resumo

Alguém com uma capa preta entra em uma biblioteca. Está com bolsas de pano pretas. Passa direto pela recepção. Mariana, na recepção, arregala os olhos e dá passos atrás. A pessoa chega até uma mesa onde estão Murilo e Derik. Pousa as bolsas. Murilo e Derik levantam a cabeça dos livros. Murilo olha para a recepção.
Tá tudo bem. (Murilo)
Etos tira o capuz da cabeça. Está sorrindo de canto.
Vai, foi engraçado. (Etos)
Murilo revira os olhos. Derik puxa uma bolsa e abre.
Valeu. (Derik)
Eu sei que você não curte lanches, mas era o que dava pra trazer. (Etos)
Não, valeu mesmo. Se eu tiver que parar pra fazer algo, vai levar mais tempo. (Derik)
Etos olha para Murilo.
Não curto barba, mas já disse que ficou legal em você? (Etos)
Murilo enrubrece, e volta a olhar para o livro.
Valeu. (Murilo)
Derik olha para Murilo. Olha para a outra bolsa. Olha novamente para Murilo. Murilo olha para Derik. Fecha o livro. Pega a bolsa e abre. Pega um lanche.
Como que as pessoas não acham os livros sobre assuntos sobrenaturais aqui? (Etos)
Derik pega o livro. Coloca a mão direita por cima, fecha os olhos. Abre. Etos se aproxima. A capa do livro diz "Conde de Monte Cristo". Etos pega, abre. Sorri. Devolve o livro na mesa. Derik coloca a mão esquerda no livro, fecha os olhos novamente. Abre. Na capa, "Fantasmas com assuntos pendentes".
Vocês definitivamente são foda. (Etos)
Não foi a gente. (Murilo)
No mínimo descobriram isso. (Etos)
Foi Derik. (Murilo)
Mas não é qualquer pessoa que consegue fazer. (Derik)
Derik morde o lanche.
Michele está em um colchão no chão. Olha para o teto. Se senta. Olha para as escadas. Aléxis desce.
Meu turno. (Aléxis)
Já passou oito horas? (Michele)
Sim. (Aléxis)
Michele levanta. Sobe a escada. Aléxis senta no colchão.
Porque criou outros? (Zenon)
Tava me sentindo sozinho. (Aléxis)
E imaginou que Argo ia te entender melhor matando a família dele inteira? (Zenon)
Ele queria transformar todo mundo. (Aléxis)
Ainda não me parece o melhor jeito. (Zenon)
Aléxis respira fundo, olha para o chão.
Tentei transformar a criança mais nova. Deu merda. A mãe viu. Gritou. Virou uma confusão. Tive que matar todo mundo. (Aléxis)
Teve? (Zenon)
Aléxis olha para Zenon.
Palavra errada. Soava menos errado dentro da minha cabeça. (Aléxis)
Talvez você ainda faria a mesma coisa. (Zenon)
Não. (Aléxis)
Como sabe? (Zenon)
Porque eu já teria matado você. (Aléxis)
Pra ficar com Michele? (Zenon)
Pra ficar com Lish. (Aléxis)
Zenon franze a sobrancelha.
Etos tem razão sobre você. Querer ficar com Michele é tão estranho quanto se ele ficasse com Murilo. Eu tenho uma história com Lish. Ela era muito mais velha que eu, na verdade. (Aléxis)
Então ela devia ficar com Etos. (Zenon)
Etos não... (Aléxis)
Aléxis franze a sobrancelha.
Acha que Etos...? (Aléxis)
Não acha estranho essa história? (Zenon)
Etos? (Aléxis)
Estela. (Zenon)
Murilo. (Aléxis)
Vamo lá, eu já estranho, cê é mais velho que eu ainda! (Zenon)
E Etos que nós dois juntos. Idade devia fazer a gente entender o quanto as coisas mudam. (Aléxis)
Zenon suspira.
Talvez seja esse o problema. Não vivi o suficiente ainda. (Zenon)
Beleno bate na porta. Alan abre.
Quanto tempo. (Alan)
Quando a gente limpou as ilhas, Janaína pediu ajuda. (Beleno)
Eu não tava reclamando. A gente sabe disso. (Alan)
Alan sai da frente da porta. Beleno entra. Tira a capa de cima das asas. Senta no sofá de dois lugares. Soraia está no de três, dorme.
Rolaram uns problemas... (Alan)
Janaína me contou. (Beleno)
Não sabemos ainda se é seguro trazer as crianças. (Alan)
Fui lá, Inês disse que tá tudo bem, que estão seguras. (Beleno)
Ótimo. (Alan)
Será que em algum momento vai ser seguro? Acho mais fácil treinar todo mundo. (Beleno)
Alan olha em direção a uma porta.
Talvez. (Alan)
Zenon tá lá embaixo? (Beleno)
Sim. (Alan)
Posso tentar ler a mente. (Beleno)
Fábio já fez isso. (Alan)
Fábio só lê se a pessoa estiver mentindo. (Beleno)
Responder com outra verdade... (Alan)
Que? (Beleno)
Nada. Eu só... Tô cansado, sei lá. Pode ficar de guarda aqui em cima? (Alan)
Claro. Se tentar fugir, vira janta. (Beleno)
Seria legal se só derrubasse ele, o espírito de Zenon tá ali também. (Alan)
Claro. (Beleno)
Alan vai em direção a uma passagem.
Não vai conseguir andar sem as pernas, e se regenera depois. (Beleno)
Alan para, fecha os olhos. Abre os olhos, olha para trás, abre a boca. Suspira. Volta a olhar para a frente, segue.
Soraia abre os olhos. Se senta no sofá. Olha para Beleno. Beleno está jogando uma bolinha colorida de uma mão para outra.
Alan saiu? (Soraia)
Foi descansar. Porque cê não tá dormindo na sua cama? (Beleno)
Não era para ter dormido. Tô sentindo cansaço demais ultimamente. (Soraia)
Não é por causa do feto? (Beleno)
Soraia abre mais os olhos.
Leu minha mente? (Soraia)
Não. Dá pra sentir. Ainda bem que Inês me falou para não sair falando coisas do corpo das pessoas pros outros, cê ainda não disse pra ninguém, né? (Beleno)
Não. Não sei se vou conseguir ter. (Soraia)
Por que? (Beleno)
Eu podia citar o fato de a gente já estar escondendo um monte de crianças. Mas eu queria ter uma criança. (Soraia)
Soraia levanta e vai para a janela. Alan aparece na porta.
Queria ver uma criança crescer, sabe? (Soraia)
Beleno mira Alan.
E você, já pensou em ter crianças com Soraia? (Beleno)
Soraia abre mais os olhos.
Nunca pensei em como seria ter uma criança. Assustei um pouco com Ísis, mas agora que vi que não é nenhum absurdo, acho que ficaria feliz. (Alan)
Soraia olha para trás.
Eu queria ter uma criança faz muito tempo. Uma menina. Falar que ela não tá morrendo na primeira menstruação, se ela tiver menstruação. Ensinar a lutar. Ir na escola falar que ela tava certa quando bater no primeiro macho folgado da vida dela, ao invés de fazer ela pedir desculpa, como meu pai fez comigo. (Soraia)
Alan sorri.
Eu nunca conto isso porque é improvável que eu tenha. (Soraia)
Por que? (Alan)
Eu engravidei duas vezes até hoje. Tentando mesmo. Perdi as duas. Quase morri na segunda. (Soraia)
Alan senta no sofá.
Zenon me disse que você tinha engravidado na outra realidade. (Alan)
E eu sobrevivi? (Soraia)
Alan olha para Soraia e engole seco. Olha para a porta.
Se for alguém ruim, não vai responder. Talvez até tenha inventado que eu tive. (Soraia)
Alan olha para o chão.
Se você quiser, a gente pode tentar. Mesmo que corra risco, eu sei que quem tem que decidir isso é você. (Alan)
Mas e seu eu tiver e morrer? (Soraia)
Aí eu vou cuidar. (Alan)
E não vai me odiar? Ou pior, culpar a criança? (Soraia)
Como que eu vou culpar uma criança pelo que a gente pode ter decidido sem que nem nascesse? (Alan)
Soraia senta no sofá. Abraça Alan. Toca o relógio de Alan. Se afastam. Alan levanta.
Posso ir, se quiser. (Beleno)
Faria isso? (Alan)
Beleno levanta. Passa pela porta. Desce a escada. Aléxis limpa os olhos. Levanta, com a cabeça baixa. Zenon se vira para a parede.
Vai ficar com o turno de Alan? (Aléxis)
Sim. Acho que Alan e Soraia precisam de um tempo. (Beleno)
Aléxis sobe a escada, sem olhar para Beleno. Beleno desce.
Tá de costas. (Beleno)
Não percebeu que Aléxis tava mal? (Zenon)
Não. Não virou os olhos pra mim. (Beleno)
A gente tava falando de Michele. (Zenon)
E isso deixou Aléxis mal? (Beleno)
Não leva a mal, mas não tô muito afim de compartilhar isso. (Zenon)
Tá. (Beleno)
Beleno se senta no colchão.
Dionísio e Fábio entram na biblioteca. Fábio se senta ao lado de Murilo. Dionísio vai para as estantes.
Ceis comeram? (Fábio)
Etos trouxe lanches. (Derik)
Fiz os exercícios com Kat já. (Fábio)
Derik solta o livro de segurava e pega um outro. Entrega a Fábio.
Vai melhorar a alimentação. (Derik)
Fábio pega o livro.
Tá estudando medicina? (Fábio)
Eu gosto bastante dessa parte. Mas desencripta o livro antes, não é medicina tradicional. (Derik)
Sabe que nem o grupo sabia disso? (Fábio)
De medicina? (Derik)
Dos livros encriptados. (Fábio)
É um pouco demais pra apelar, mas os nossos não bastaram. (Derik)
Mariana se aproxima da mesa.
Oi. (Mariana)
Vai fechar? (Derik)
Mariana suspira.
Tem um banheiro aqui dentro, eu tomo banho lá. (Mariana)
Murilo cheira a roupa.
Não é isso... (Mariana)
Mariana olha para cima. Olha para as pessoas.
Eu ouvi parte da conversa de vocês um dia. Não entendi os termos, mas ceis tão procurando algum tipo de cura pra ajudar alguém, não é? (Mariana)
Derik baixa a cabeça.
Minha mãe ficou doente há uns anos atrás. A gente não encontrava nada pra ajudar ela. Eu sei que existe umas coisas, que não são o que todo mundo conhece... Por que era algo disso que deixou ela doente. A gente procurou. Não encontramos nada. Eu não tenho mais coragem de dizer pra vocês irem pra casa. (Mariana)
Mariana pousa um molho de chaves na mesa.
Fiz uma cópia vindo pra cá. Tava rezando que vocês achassem hoje e eu tivesse gasto meu dinheiro a toa. (Mariana)
Fábio pega o molho de chaves.
Agradecemos sua ajuda. (Fábio)
Mariana abaixa e levanta a cabeça.
O banheiro é nos fundos, depois da sessão onde tem histórias infantis. (Mariana)
Mariana vai até a recepção. Pega uma bolsa. Fábio levanta. Pousa de volta a chave na mesa.
Vou buscar roupas pra vocês. (Fábio)
Fábio vai na direção de Mariana. Saem. Derik olha para Murilo.
Será que a gente não vai conseguir? (Derik)
Vamos. Nem que precisemos passar essa missão para as crianças. Kat vai voltar, nem que a gente não esteja mais aqui. (Murilo)
Dionísio vem com alguns livros. Senta.
Ceis tão procurando de Kat ou de Zenon agora? (Dionísio)
Derik de Zenon, eu de Kat. (Murilo)
A maioria que achei seria em relação ao espírito, pra Zenon, mas achei um sobre poderes em sonhos. (Dionísio)
Derik respira fundo.
Melhor eu continuar o que estou lendo, se a gente fica pulando de livro em livro, demora mais. (Derik)
Isso. (Murilo)
Só preciso repetir isso mais algumas vezes. (Derik)
Dionísio pega um dos livros. Abre. Começa a ler.
Beleno está jogando a bolinha colorida de uma mão para outra. Zenon, ainda de costas, sentou-se no chão. Respira fundo. Beleno para.
Você não devia não respirar? (Beleno)
Força do hábito. Falar de Michele me lembrou da pessoa que tava na minha vida antes. Acho que você sabe quem é. (Zenon)
Faz umas horas já, nem eu tava lembrando o que falou quando chegou aqui. (Beleno)
Quantas horas? (Zenon)
Três horas e vinte e sete minutos. (Beleno)
Nossa. Cê deve mesmo estar gostando de ficar aqui. (Zenon)
Não me disseram que era para gostar. (Beleno)
Por que veio? (Zenon)
Alan e Soraia... (Beleno)
Ah, é. Angely teria ficado orgulhoso de você. E Beatrice também. (Zenon)
Não sei. Não sei se sei quem é Beatrice. (Beleno)
Zenon baixa a cabeça.
Tem uma coisa que eu ainda não contei pra ninguém. (Zenon)
É sobre Beatrice? (Beleno)
Beleno levanta.
Você sabe onde Beatrice tá? (Beleno)
Mais ou menos. (Zenon)
As asas de Beleno se agitam.
Eu sabia! Vocês eram amigos, é óbvio que ela teria te dito! (Beleno)
Não disse. (Zenon)
As asas param.
Então é algum lugar que você sabe que ela gosta? Que se sente bem... (Beleno)
Eu fui até uma vidente ver se conseguia encontrar. Depois do que aconteceu com Mel. (Zenon)
Ah! E onde é? (Beleno)
O bracelete que Rust usa e a tornozeleira de Beatrice têm a mesma função. (Zenon)
É pra localizar? (Beleno)
Não. Pra manter a sanidade. (Zenon)
Então porque tá falando disso? (Beleno)
Por que foi com isso que a vidente me deu a resposta. (Zenon)
Então serve pra localizar... (Beleno)
No planeta, só achou um. Estava em Hera, no dia do enterro de Mel. (Zenon)
Então não conseguiu achar Beatrice, quem tava lá era Rust... (Beleno)
Isso. (Zenon)
Então... Beatrice está sem a pedra? Mas, isso... (Beleno)
Eu perguntei depois. A pedra teria que ter sido destruída. Mas a pedra só seria destruída se Beatrice... (Zenon)
Zenon se vira. Olha para Beleno. Beleno se concentra nos olhos. Fecha os punhos, arregala os olhos. Sobe a escada correndo. Atravessa a sala, que está vazia, abre a porta, sai e voa.
Michele entra na casa de Soraia e Alan. Aléxis entra atrás, tira a capa. A sala está vazia. Se entreolham.
Soraia! (Michele)
Soraia vem até a sala.
Que houve? (Soraia)
Por que não tem ninguém guardando a sala? (Michele)
Aléxis encerrou o turno lá embaixo, achei que ia ficar aqui na sala. (Soraia)
O turno aqui em cima não era antes do lá de baixo? (Michele)
Soraia franze a sobrancelha.
Agora não sei. Minha cabeça anda cheia. Beleno tá lá embaixo, vou checar. (Soraia)
Soraia abre a porta e desce as escadas, Michele e Aléxis seguem. Soraia olha para a jaula e engole seco. Atrás das grades, apenas sangue espalhado. Alan desce correndo. Abre a grade. Coloca a mão na boca. Toca o sangue no chão e se aproxima de Aléxis.
É dele?! (Alan)
Aléxis baixa a cabeça e volta. Michele se senta no colchão.
Não tem cinzas. Mas o que quer que tenha levado, ele não queria ir. (Soraia)
Então provavelmente tava o espírito bonzinho dominando, né? (Aléxis)
Ou o que levou ele não vai se importar muito qual dos dois é. (Soraia)
Janaína está em uma mesa. Está comendo comida. Zeiro entra.
Estamos quase acabando. (Zeiro)
Janaína para, olha para Zeiro, limpa a boca com um guardanapo.
Cê quer? Fui eu quem fiz... Não tá nenhuma maravilha culinária, mas dá pra comer... (Janaína)
Zeiro sorri.
A gente se alimenta de plantas na natureza, fora vampirs. (Zeiro)
Ah... O jardim da casa é grande. (Janaína)
A gente já percebeu. (Zeiro)
Janaína levanta.
Agradeço muito pelo que fizeram. (Janaína)
Nós que agradecemos. Não sabia que construir coisas fazia tão bem. Voamos pelo mundo, vimos o que mais gostávamos. Construímos a coisa mais bela que conseguíamos imaginar. (Zeiro)
Então gostaram? (Janaína)
Queríamos perguntar uma coisa. (Zeiro)
Podem ficar o quanto quiserem, podem morar aqui se quiserem. (Janaína)
Como sabia? (Zeiro)
Não precisa ler a mente pra ver as coisas nos olhos das pessoas. Seus olhos brilharam enquanto você falava do que fizeram. (Janaína)
A gente tava pensando em mudar o teatro para ficarmos lá. Mantivemos a construção dele pensando em ficar. (Zeiro)
Só preciso que nosso acordo seja mantido. (Janaína)
Sua aliança não vai ser atacada. (Zeiro)
Janaína sorri.
Na verdade, vocês poderiam até nos expulsar daqui. A terra era minha, mas vocês quem transformaram no que é hoje. E numa velocidade impressionante. (Janaína)
A gente não faria isso. Mesmo porque, a parte debaixo das ilhas não foi construída pela gente. (Zeiro)
Ah, mas isso é natureza... (Janaína)
Zeiro franze a sobrancelha.
Não é, não... (Zeiro)
Janaína franze a sobrancelha. Zeiro desfranze.
Você não sabe. (Zeiro)
Não. (Janaína)
As ilhas não são naturais. (Zeiro)
Tá falando sério? (Janaína)
Fizemos um mapa. Depois te trago. (Zeiro)
Seria bom colocar no computador isso. (Janaína)
Eu te trago e você mexe nesses troços tecnológicos. (Zeiro)
Zeiro sai. Janaína se senta. Suspira. Volta a comer.
Alguém com um capuz se aproxima do lago, com uma caixa de metal nas mãos. Abre. Cinzas. A pessoa remexe as cinzas. Pega um punhado e derruba em cima do resto, devagar. Olha para o lago. Se aproxima mais. Abaixa. Pega um punhado de cinzas novamente. Abaixa e coloca sobre a água, devagar. As cinzas se espalham na água. A pessoa se levanta. Fecha a caixa. Espera. Solta os ombros. Anda para dentro da água, até ficar até a cintura, vira a caixa na água. As cinzas se espalham. Dessa vez, a água do lago vai fazendo uma mancha cinza, que se espalha por toda a água. A pessoa sai rápido, antes que a mancha lhe toque. A água volta aos poucos a cor normal. A pessoa se vira e sai andando.
Noite. Beleno desce em uma praça. Aléxis está em um banco. Olha para Beleno.
Você sabe quem é a vidente que Zenon foi ver? (Beleno)
Está morta. (Aléxis)
E sabe se mais alguém sabe fazer o que ela sabe? (Beleno)
Ela tinha um globo com pedras. Porque? (Aléxis)
E como ela via? (Beleno)
Era atlante. (Aléxis)
Como eu? (Beleno)
Aléxis franze a sobrancelha.
Você... Tem razão, você é meio atlante... (Aléxis)
Não existe meio atlante. (Beleno)
Como sabe disso? (Aléxis)
Edmont. (Beleno)
Então você talvez conseguisse ler aquela coisa. (Aléxis)
E achar Beatrice. (Beleno)
Como assim? (Aléxis)
Zenon disse que a vidente tentou achar Beatrice e não conseguiu. Talvez eu consiga. (Beleno)
Mas Beatrice não queria... (Aléxis)
Me diz onde descer. (Beleno)
Aléxis franze a sobrancelha, Beleno começa a bater as asas. Aléxis desfranze a sobrancelha, arregala os olhos... E some.
Janaína sai do banheiro, de toalha. Zeiro levanta da cadeira, Janaína grita. Zeiro dá um passo para trás, olha nos olhos de Janaína.
Nossa! Desculpa! Pera, quem tem que... (Janaína)
Tá com vergonha porque tá sem roupa, mas tudo que eu tô vendo na sua mente sou eu. (Zeiro)
Ah... É mesmo... (Janaína)
Janaína segura a toalha.
Mas... Mesmo assim... (Janaína)
Zeiro sai do quarto.
Eu tô com os mapas aqui. (Zeiro)
Não pode deixar no meu escritório? (Janaína)
Tá. (Zeiro)
Valeu! (Janaína)
Zeiro segue o corredor. Passa algumas portas. Entra por uma. Pousa um maço grande enrolado na mesa. Sai do escritório. Para um instante. Fareja o ar. Revira os olhos. Vai em direção a escada. Desce.
Aléxis cai em pé em frente a onde morava Naian. Beleno pousa mais para frente. Aléxis olha para Beleno.
Seria uma boa ideia pedir permissão da próxima vez. (Aléxis)
Beleno entra no lugar. Fareja o ar. Aléxis entra.
Parece que tem alguma coisa diferente aqui. (Beleno)
Vai ver que é seu sentido... De atlante... Sei lá... (Aléxis)
Onde tá? (Beleno)
Tava em uma sala mais pra dentro quando vi. (Aléxis)
Beleno entra pelas cortinas, passa pela sala, entra por outras. Aléxis segue. Beleno olha para Aléxis. Aléxis vai até o armário. Abre. Beleno se aproxima. Pega o globo. Solta. Aléxis abaixa e segura.
Que foi? (Aléxis)
Parece que deu choque. (Beleno)
Então deve funcionar com você. (Aléxis)
Aléxis pousa o globo em cima da mesa. Beleno se senta. Aproxima uma mão. Contrai o abdomen e os ombros, afasta a mão. Aproxima a mão novamente. Fecha os olhos. Passa a mão devagar pelo globo, com a outra mão fechada. Crava as unhas na palma da outra mão, que sangra.
Beleno... Não quer ir... Com mais cuidado? (Aléxis)
Beleno continua com os olhos fechados, apertados. Abre os olhos e a mão que sangrava. Sai voando pela janela, destruindo o vidro. Aléxis se aproxima da janela. Balança a cabeça para os lados. Pega o celular do bolso. Mexe algumas vezes na tela. Enfia o celular de volta no bolso e sai pela porta.
Janaína está na cama. Se vira para um lado. Para outro. Bufa. Senta na cama. Sai da cama. Pega o celular. Sai do quarto. Entra no escritório. Olha para as plantas abertas sobre a mesa. Olha para um símbolo marcado no meio. Franze a sobrancelha. Olha para o canto do mapa. Está marcado 3. Mexe nos cantos, vê os números em sequência até 7, depois 0, 1 e 2. Pega o celular. Tira foto do mapa 3. Enrola. Repete o processo com os outros mapas. Clica algumas vezes no celular. Guarda o celular no bolso do pijama. Coloca os mapas dentro de um armário, em pé. Vai até seu quarto. Coloca um casaco grande em cima do pijama. Sai do quarto. Anda pelo corredor, desce as escadas. Sai da casa, para o jardim. Olha ao redor. Sua casa é a única. Há uma grande grade, a perder de vista, cercando as ilhas. Olha para a fonte. Pega o celular. Olha o mapa zero. Alguns pontos com X. Olha de novo para a fonte. Entra na fonte. Começa a tocar as partes. Toca em cima, a fonte acende inteira. Suas partes vão baixando. Forma um octágono no centro, que tem outro octágono menor dentro, ligados por suas pontas. Um dos trapézios formados não brilha. Janaína abaixa. Chega o dedo perto do primeiro a direita deste, depois o segundo, então o terceiro. Toca. A fonte começa a descer. Janaína fica em pé. Assim que sua cabeça está abaixo da entrada, uma porta se fecha acima. Janaína olha para baixo. Passa um vão. Um segundo vão. Para no terceiro. Janaína sai. Um corredor extenso para ambos os lados, não reto. Pega o celular de novo. Passa a tela para a esquerda algumas vezes. Segue a esquerda pelo corredor. Ouve um barulho, volta. Apenas o vão. Suspira. Volta a seguir pelo corredor. O corredor vira. Algumas portas. Uma voz. Janaína diminue o passo. Se aproxima de uma porta com uma luz. Olha para dentro. Alguém de costas.
Mas a gente precisa acordar ela! Você não entende! (Padoi)
Padoi se vira. Janaína se esconde atrás da porta.
Mas onde diabos você foi agora?! (Padoi)
Janaína arregala mais os olhos. Se vira e começa a andar na direção de onde veio. Mãos em um capuz puxam Janaína. Janaína grita. A pessoa mostra os dentes. Puxa Janaína para junto de seu corpo e trava Janaína, que ainda grita. Tapa a boca de Janaína e morde o pescoço. Janaína ainda tenta se debater. Aos poucos, perde as forças. Solta o corpo. A pessoa ainda segura Janaína por um tempo, com a boca no pescoço. Então solta.
Beleno desce em frente a um galpão. Cadmo e Amália, de uniformes, apontam grandes lanças.
Beatrice! Eu sei que você tá aí!!! Eu preciso de você! Zenon precisa de você! Todo mundo precisa de você! (Beleno)
Amália franze a sobrancelha. Cadmo afrouxa a postura. Virgine sai.
Que diabos você tá gritando na frente da minha casa? (Virgine)
Eu sei que ela tá aí dentro! Eu vi! (Beleno)
Virgine revira os olhos. Entra. Beleno vai seguir, Amália coloca a lança na frente.
Deixa. (Virgine)
Amália levanta a lança.
Dionísio lê o livro. Para um instante. Abre a boca. Olha para Derik. Fecha a boca. Derik fecha o livro que estava lendo.
Fala de uma vez, aí já é demais pra mim. (Derik)
Murilo olha para Derik e Dionísio.
E se o que deixou Kat dormindo foi ter abusado do próprio poder? (Dionísio)
Achei que era algo que você tinha lido aí... (Murilo)
E é. Aqui fala sobre transferir o poder. Se for isso, não tendo o poder, Kat acordaria, não? (Dionísio)
Derik pega o livro. Lê. Fecha o livro.
Não posso tirar algo assim de Kat sem perguntar. (Derik)
Não fala aí que não dá pra reverter. (Dionísio)
Gente, isso seria demais. (Derik)
Não dá pra perguntar com Kat dormindo. (Murilo)
Derik olha para Murilo.
Derik, Kat não tá usando poder nenhum no estado que está. (Murilo)
E se estiver usando? (Derik)
Se estiver vendo algo, não tá conseguindo contar pra gente. (Murilo)
E o livro que caiu no chão? (Derik)
Qual ia ser o seu desespero se tudo que você pudesse fazer fosse jogar um livro no chão? (Murilo)
Eu não posso... (Derik)
Bom, se você não pode, foda-se, porque a gente tá perdendo Kat e eu não vou... (Murilo)
Murilo coloca a mão no livro. Derik puxa o livro.
Você não tem o direito de decidir isso. (Murilo)
Ninguém de nós aqui tem. (Derik)
E você acha que depois de tudo Kat ia preferir abandonar a gente? (Murilo)
Derik baixa a cabeça.
A gente leva o livro para casa e pergunta o que Kat quer. (Derik)
Como que... (Murilo)
Se Kat conseguiu derrubar um livro, vai conseguir responder isso. (Derik)
E se não tiver mais forças? (Murilo)
Derik olha para Murilo. Seus olhos estão marejados.
Vai ter. (Derik)
Toca o celular de Dionísio. Dionísio atende.
Fala. ### Não, quanto a Zenon, não, mas... ### Ai, caralho... (Dionísio)
Murilo e Derik olham para Dionísio.
Tá. A gente tá indo praí. (Dionísio)
Derik entra no quarto. Se aproxima de Kat. Pousa o livro na cabeceira. Ajoelha ao lado da cama.
Dionísio e Murilo querem tentar transferir seu poder. Por algum motivo, eu acho que você me odiaria se eu fizesse isso. Mas têm razão: eu não tenho como responder isso por você também. Também não acho que você iria preferir ficar aqui o resto da sua eternidade. Mas eu preciso que você responda. (Derik)
Derik passa a mão no cabelo de Kat.
Eu sei que, se você não quiser, você é capaz de sumir com esse livro. Nem que seja para arrancar a página do feitiço. Mas... Se você quiser... Só deixa o livro aí. Eu não disse para Murilo nem Dionísio o que iria fazer. Com certeza vão pegar o livro e fazer. Então só me ajuda. Não posso decidir isso por você. (Derik)
Derik dá um beijo na testa de Kat. Levanta. Sai. Fecha a porta. Murilo está no sofá, junto com Alan. Trinity e Etos estão junto a uma parede. Michele e Aléxis em outro sofá. Fábio está na bancada, Dionísio encostou-se na janela. Soraia está ao lado de Dionísio, olhando para fora.
Dá pra rastrear Zenon pelo sangue ou alguma coisa assim? (Derik)
Quem sabemos que poderia rastrear Zenon sumiu também. (Soraia)
Não tinha sangue de Beleno nas grades? (Derik)
Beleno tá bem. Quer dizer, pelo menos fisicamente. (Aléxis)
As pessoas olham para Aléxis.
Veio perguntar pra mim da vidente que morreu, tocou num dos troços que ela usava pra lozalizar pessoas e sumiu. (Aléxis)
O que Beleno tava querendo? (Soraia)
Achar Beatrice. (Fábio)
Pena que não dá pra cria achar quem criou, se não a gente podia tentar Trinity. (Aléxis)
Trinity revira os olhos.
Já disse que Edmont quem fez isso comigo. (Trinity)
Edmont pode ter usado sangue de Beatrice. (Derik)
Trinity olha para Derik.
Tá falando sério? Por que diabos? (Trinity)
Não conheço alguém que consiga explicar o que Edmont faz. (Derik)
Derik baixa a cabeça.
Fazia. Enfim... (Derik)
Derik olha para Soraia.
Sabe se tem algum jeito de localizar Pégasus? (Derik)
A gente pode ligar pra Janaína e pedir pros outros fazerem isso. (Soraia)
Etos tira o telefone do bolso. Desbloqueia. Franze a sobrancelha. Arrasta para baixo. Clica. Passa algumas vezes para a direita.
Janaína mandou mapas. (Etos)
As pessoas pegam seus celulares. Aléxis clica algumas vezes. Revira os olhos. Se aproxima de Etos. Etos tira da tela dos mapas. Aléxis suspira. Etos disca. Coloca na orelha. Espera. Desliga.
Não me atende. (Etos)
Trinity sai dos mapas, disca também. Espera. Nada. Desliga.
A gente precisa ir checar Jana. (Trinity)
Ok. Mais alguém vai junto? (Derik)
Eu vou. Vou enlouquecer se ficar aqui pensando em Zenon. Aproveito e peço pra procurarem Zenon também. (Michele)
Bom lembrar que não é pra um lanchinho. (Soraia)
Michele sai. Etos e Trinity seguem.
Soraia, Fábio, Dionísio, Alan... (Derik)
O grupo. Ver se ninguém descobriu e enfiaram em uma cela por lá. (Soraia)
Vou procurar entre vampirs, ver se ouviram algo. (Aléxis)
Soraia sai, Fábio segue. Dionísio também.
Acham que alguém machucou Zenon? (Alan)
Não dá pra saber. (Derik)
Alan sai.
E a gente fica, esperando a resposta de Kat. (Murilo)
Derik baixa a cabeça. Entra no quarto. Murilo entra atrás. Fecha a porta.
Beleno entra em um banheiro grande. Kassandra olha para Beleno.
Então consegue achar os seus? (Kassandra)
Que houve? (Beleno)
Kassandra passa a mão nos cabelos de Rust. Rust está dentro da banheira, que está cheia de gelo. Olhos fechados.
Virgine disse que colocou a mão no pescoço, atrás. Gritou. Caiu no chão, se encolheu. Estremeceu. Abriu os olhos. Disse que alguém tinha que impedir. Fechou. (Kassandra)
O ritual... (Beleno)
Kassandra olha para Beleno.
Que ritual? (Kassandra)
Melody, Angely e Edmont morreram. (Beleno)
Kassandra volta a olhar para Rust.
Sabe porque Virgine evitou Melody? (Kassandra)
Porque tá com medo? (Beleno)
Porque eu pedi. Quando trouxe a realidade de Rust para cá, eu vi o que houve lá. Não queria que acontecesse de novo. (Kassandra)
Pelo que sei, Virgine que quis enfrentar Melody. (Beleno)
Virgine não fazia ideia. Ainda não faz. Do que era o ritual? (Kassandra)
Resolveram selar os corpos, para proteger. Rust selou Edmont. (Beleno)
E porque protegeriam? (Kassandra)
Pra que ninguém acordasse. (Beleno)
Então alguém tentou acordar Edmont. (Kassandra)
E porque acha que não conseguiram? (Beleno)
Porque seria Edmont aqui, não você. (Kassandra)
As asas de Beleno se movem fracamente.
Beatrice está mesmo aqui? (Beleno)
Kassandra baixa a cabeça. Olha para Rust. Beija-lhe a testa. Levanta. Sai do banheiro. Beleno olha para Rust. Segue Kassandra. Entram em uma sala. Kassandra se aproxima de uma estante. Abre. Pega uma caixa de metal. Se aproxima de Beleno. Beleno mira os olhos de Kassandra. Sacode a cabeça.
Meu anjo. Você não vai conseguir ler a mente de alguém com uma maldição como a minha. Se você lesse, as pessoas poderiam acreditar em mim. (Kassandra)
O cheiro... (Beleno)
Cinzas. Era só perguntar. Mas, de novo, eu poderia mentir. (Kassandra)
Então como eu... (Beleno)
Porque você sabe. Porque você viu. Só existe uma pedra. E Rust, apesar do estado em que se encontra, está por aqui. (Kassandra)
Beleno se aproxima de Kassandra. Vai com as mãos em direção a caixa. Volta as mãos. Kassandra volta a estante. Pousa a caixa. Se aproxima de Beleno. Abraça. Beleno abraça de volta. Solta o corpo, Kassandra desce ao chão devagar junto. Beleno se apoia em Kassandra. Puxa o ar forte, os olhos cheios de lágrimas. Se afasta. Deita no colo de Kassandra. Kassandra passa a mão nos cabelos de Beleno.
Fundo do lago. Um par de olhos cinzas abrem. Piscam devagar. Voltam a fechar.

Resumo do Capítulo

Etos leva lanches a Derik e Murilo, que estão na biblioteca. Aléxis substitui Michele na guarda de Zenon. Zenon pergunta da história de Aléxis, e falam sobre Murilo. Beleno vai a casa de Soraia e Alan. Fala em ler a mente de Zenon. Alan lembra de Zenon lhe ensinando a enganar Fábio. Pede a Beleno para ficar de guarda na sala em seu lugar. Beleno fala a Soraia que sabe que está carregando um feto. Alan chega na sala, Beleno ajuda Soraia a desfarçar. Alan fala que Soraia havia engravidado na outra realidade. Beleno se oferece para substituir o turno de Alan ao lado da cela também. Aléxis não olha nos olhos de Beleno ao subir, Zenon também está olhando para a parede. Fábio e Dionísio vão encontrar Derik e Murilo na biblioteca. Mariana, que trabalha na biblioteca, diz que entende a situação que estão e dá uma cópia das chaves da biblioteca. Fábio vai buscar roupas, Dionísio fica para ajudar nas pesquisas. Na cela, Zenon conta a Beleno sobre Beatrice. Beleno esquece de tudo e sai voando, e não havia ninguém na sala. Parte das pessoas chegam e descobrem a cela ensanguentada e vazia. Zeiro conta a Janaína que estão quase terminando seu trabalho nas ilhas. Conta que a parte de baixo das ilhas é construída, não natural. Uma pessoa leva cinzas para o lago. A água do lago fica cinza e volta a ficar azul. Beleno pergunta a Aléxis da pessoa que viu sobre Beatrice. Aléxis fala que Naian era atlante. Zeiro leva os mapas das ilhas para Janaína. Nota algum cheiro, mas deixa passar. Aléxis e Beleno vão até onde morava Naian. Beleno usa o globo de Naian. Sai voando. Janaína pega os mapas, manda fotos para a MEAK e vai ao terceiro subsolo das ilhas. Encontra Padoi discutindo com alguém. Tenta sair, mas a pessoa com quem Padoi discutia morde e bebe todo o sangue. Beleno vai até Virgine, procurando Beatrice. Dionísio diz que Kat pode ter abusado de seu poder e sugere transferir os poderes. Derik pede a Kat que faça algo para responder se quer ou não o feitiço. Aléxis conta sobre Beleno. Acham os mapas que Janaína enviara. Etos, Trinity e Michele vão verificar Janaína. As pessoas ligadas ao grupo vão ao grupo descobrir se não têm a ver com o sumiço de Zenon. Beleno encontra Rust doente, com Kassandra, que diz que Rust falou que alguém tinha que impedir algo. Beleno conta sobre Melody, Angely e Edmont e o selo que havia sido feito. Kassandra deduz que tentaram acordar Edmont. Kassandra entrega cinzas a Beleno.

Dara Keon