Alguém que cuidou
MEAK
C14

Alguém que cuidou

MEAK. Kat está atrás do balcão. Andrea entra, com a estátua de Glória nos braços. Kat franze a sobrancelha.
Quem fez isso? (Kat)
Eu fiz. (Andrea)
Inês entra, com a de Vivian nos braços. Coloca no sofá. Rust vem com Negre e Groc. Beleno com Vermell e Dubh. Lish com Buí e Dearg. Aqua traz Ísis. Kat olha para Ísis e engole seco.
Não foi por maldade, Andrea tava... (Inês)
Protegendo as crianças. (Kat)
Derik vem para a sala, vindo do quarto. Trava.
Achei que a cara que você tinha feito... (Inês)
Lembrei que vamos ter que contar a Ísis sobre Juliana e Alan. (Kat)
Inês baixa a cabeça.
Que feitiço usou? (Derik)
O mesmo de César. Estão em suspensão. (Andrea)
Sonham? (Derik)
Não sei. (Andrea)
Foi Padoi quem fez César fazer esse feitiço, provavelmente sabe do feitiço. (Kat)
O efeito é o mesmo? (Derik)
Eu tô no lugar que era de Shy. (Inês)
Derik olha para Andrea.
Se você que fez o feitiço, pelo que Argo me falou... (Rust)
Quando tiverem resolvido Padoi, Inês me mata e as crianças ficam livres. (Andrea)
Beleno franze a sobrancelha.
Tem que ter outro jeito! (Beleno)
César não encontrou em anos. (Andrea)
César queria morrer, não tava procurando! (Beleno)
A gente pode procurar depois que resolvermos Padoi. (Derik)
Andrea se aproxima de Beleno.
Você devia querer que eu morresse. (Andrea)
Os olhos de Beleno marejam.
Só porque arrancou minha asa e tentou me convencer que matei pessoas? Isso não é nada, cê cuidou da gente... (Beleno)
Andrea abraça Beleno. Beleno fecha os olhos, as lágrimas caem. Andrea se afasta.
O que eu puder ser de ajuda, me avisem. (Andrea)
Andrea sai. Beleno olha para Kat. Kat inclina um pouco a cabeça para baixo e volta. Beleno sai.
Fábio foi para as ilhas, acho que deve ser o lugar mais seguro para as crianças agora. (Kat)
Derik pega o telefone. Disca. Vai para o quarto. Lish olha para Kat. Kat olha para Lish.
Algum problema? (Kat)
Tentei fazer parecer que Derik e Murilo estavam tendo um caso. Queria te afastar de Mel, por vingança. (Lish)
Por que tá me dizendo isso agora? (Kat)
Porque não sou mais quem eu era, ou ao menos não só o que eu era. Tenho que assumir meus atos. (Lish)
Lish olha para o quarto.
Vou pedir desculpas a Derik quando sair. (Lish)
Não era de todo ruim. Sua empolgação em pensar em roupas quando ninguém mais pensou deixou Murilo feliz. (Kat)
Lish olha para Kat. Baixa a cabeça.
Murilo era legal. E saber que consegui achar a mesma pessoa legal, duas vezes, em corpos diferentes... (Lish)
Lish olha para Kat.
Mas nunca foi da minha cultura lamentar a morte. (Lish)
Lish dá meio riso.
Ao menos na minha primeira vida. (Lish)
Também não é da cultura atlante. Mas ficar vendo toda hora alguém ir embora assim também não é a coisa que eu mais queria. Principalmente do jeito que tá acontecendo. (Kat)
Kat olha para Ísis.
Sinceramente prefiro ver as crianças assim do que dentro de um caixão. (Kat)
Kat olha para Glória.
Ou no fundo do lago. (Kat)
Padoi abre os olhos. Senta-se. Está em uma cama confortável, em um quarto de hotel. Vai até o banheiro. Tampa a pia. Enche de água. Morde o pulso, deixa cair sangue. Pega uma toalha e enrola na ferida. Pousa as mãos na pia. Fecha os olhos. Aperta. Abre.
Pegaram o desgraçado. (Padoi)
Padoi vai para o quarto. Abre o frigobar. Uma garrafa com um líquido vermelho espesso dentro. Olha para uma lixeira. Diversas garrafas vazias sujas.
Preciso arranjar outra fonte! Maldito incompetente! (Padoi)
Padoi atira a garrafa contra a parede. A garrafa cai no chão, rola para baixo da cama. Padoi arrasta a cama. Pega a garrafa. Abre. Bebe todo o líquido. Suspira. Senta na cama. Abre mais os olhos.
A nova pessoa não precisa saber que eu dependo dela. (Padoi)
Padoi sorri.
E vou poder acordar Melody. (Padoi)
Padoi olha para a janela.
Aposto que, se eu pegar Glória, Melody acorda. Só preciso achar a tal Andrea de quem Zenon falou. (Padoi)
Fábio chega ao teatro. Zeiro pousa em frente a Fábio.
Quer uma carona para ir? (Zeiro)
Na verdade, precisamos de ajuda de vocês. (Fábio)
Com o que? (Zeiro)
Sabe algo de vampirs de nascimento? (Fábio)
A gente não encosta. (Zeiro)
Fábio franze a sobrancelha. Desfranze.
Não ia pedir pra matarem. (Fábio)
Imaginei que não. Sendo atlante, achei que saberia a diferença. (Zeiro)
Sabe do feitiço que foi feito? (Fábio)
Faz bastante tempo agora, mas tão livres já. Aliás, pelo que eu soube... (Zeiro)
Foi o pessoal da MEAK que ajudou. (Fábio)
Isso. (Zeiro)
O feitiço foi feito de novo, em outras criaturas. (Fábio)
Se quem fez foi vampir, a gente vai ficar feliz em dividir o problema. (Zeiro)
Fábio abre a boca. Fecha. Suspira.
Você tá dizendo isso literalmente, né? (Fábio)
Não, mas nosso recorde até hoje foram sete pedaços. (Zeiro)
Fábio engole seco.
Pelo som que ouvi, você não queria esse nível de detalhe. (Zeiro)
A gente não quer desfazer o feitiço. Foi com nossas crianças, pra proteger de Padoi. Eu não acho uma boa ideia, mas Kat quer manter. (Fábio)
Zeiro franze a sobrancelha.
A gente quer trazer para cá. (Fábio)
Ah, o serviço é de carga? (Zeiro)
Pode-se dizer que sim. (Fábio)
Zeiro dá um berro, Fábio tapa os ouvidos. Pégasus levantam do telhado.
Uma última coisa: não vamos trazer vampirs pra cá, né? (Zeiro)
Zenon, de quem te falei, já... (Fábio)
Vocês já se enganaram uma vez. Fora vampirs atlantes, o que aliás me soaria bem bizarro se não conhecesse Rust, e Etos, não vamos deixar mais ninguém entrar aqui. (Zeiro)
Zeiro olha para as asas voando acima de si. Começa a bater as asas e sobe um pouco no ar.
Quer carona? (Zeiro)
Vou ficar mais um tempo. (Fábio)
Se tiverem mais alguém que precisem deixar seguro, só avisar. (Zeiro)
Zeiro voa. Fábio pega o celular. Abre o aplicativo de mensagens. Abre a conversa com Soraia. A última mensagem é um vídeo aguardando download, com o texto “Zenon teve o que merecia”. Suspira. Abre mais os olhos. Olha para Zeiro voando já longe. Olha para o celular. Começa a digitar.
Soraia está na cama. Passa a mão na barriga. Dionísio entra no quarto.
Eu olho sua barriga e lembro da mãe da Valquíria berrando com Louis. (Dionísio)
Parece agradável. (Soraia)
Se tem uma coisa que aquele parto não foi, é agradável. (Dionísio)
Dionísio senta na cama, pega a mão de Soraia.
Cê tá bem? (Dionísio)
Soraia encara Dionísio.
Sim, eu sei, não tem como estar... Tava perguntando na medida do possível. (Dionísio)
Soraia suspira.
Vou ficar. Vou precisar cuidar de Clara e Ísis. (Soraia)
Achei que Branca... (Dionísio)
Eu quero ficar com Ísis. Vai ser bom, ter a irmãzinha. (Soraia)
Depois de Murilo, mesmo que nasça XX, que provavelmente foi o motivo de te dizerem que lá era menina, eu não sairia deduzindo isso assim. (Dionísio)
Tem razão. (Soraia)
Soraia franze a sobrancelha.
Eu devia pensar em um nome unissex? (Soraia)
O celular de Soraia faz barulho. Soraia pega. Clica algumas vezes. Entrega a Dionísio. Dionísio lê.
Faz sentido. (Dionísio)
Não sei. Eu prefiro ficar perto do Grupo. (Soraia)
Dionísio cruza os braços.
Aquele que prefere fingir que Padoi não existe? (Dionísio)
Quando a outra opção é ir pra suposta fortaleza onde a gente já perdeu gente... (Soraia)
Dionísio descruza os braços.
Talvez você devesse seguir a tal recomendação de Argo pra Michele. (Dionísio)
Ficar perto de Kat? (Soraia)
Pelo que Fábio disse, se Kat tiver o que Mel tem... (Dionísio)
Pode não conseguir controlar também. (Soraia)
Dionísio fecha a boca.
Pensando bem, acho uma boa ir pra bem longe. Um lugar onde provavelmente não vai ter luta com Padoi de novo. (Soraia)
Eu vou pegar as malas. (Dionísio)
Dionísio levanta da cama, sai do quarto. Soraia coloca a mão na barriga.
Vou te arranjar um nome de outro século, assim ninguém vai saber o gênero. Que tal se eu te chamar de Lish? (Soraia)
Zeiro pousa no alto de um prédio. Aidan, Juan e Huru pousam também. Kat vem de uma porta para a escada.
Valeu virem ajudar. (Kat)
Sem problemas. Onde estão? (Zeiro)
Vem comigo. (Kat)
Kat volta pela escada. Zeiro, Aidan, Juan e Huru seguem. Descem alguns andares. Entram pelo corredor. Kat entra na MEAK. Pégasus vêm atrás. Derik levanta e olha para Zeiro.
A gente precisa de uma ajuda. (Zeiro)
Ah... (Derik)
Derik vai para o balcão e olha para as estátuas. Zeiro mira os olhos de Derik. Aidan faz o mesmo. Franze os olhos.
Mas eita! (Aidan)
Fábio não disse quantas crianças eram? (Kat)
Não. São oito. (Zeiro)
Consigo levar duas. (Huru)
Acho que também. (Aidan)
Derik pega a estátua de Vivian no sofá. Olha para Zeiro.
Zeiro? (Derik)
Zeiro olha para Derik. Derik olha para Vivian.
Nove. (Zeiro)
A conta não fecha. (Juan)
Podem voltar depois? (Kat)
Pode ser. (Zeiro)
Quem vão deixar, Vivian? (Derik)
Glória. (Kat)
Derik franze a sobrancelha.
Vivian é bebê, e todas as outras crianças são da espécie humana. (Kat)
Faz sentido. (Derik)
Padoi está andando pela cidade. Entra em um beco. Andrea solta o corpo de uma pessoa. Olha para Padoi.
Parece que estava bom. (Padoi)
Estava. Ao menos o sangue. (Andrea)
Tenho uma proposta a fazer. (Padoi)
Sabe quem sou? (Andrea)
Me desculpe, passei muito tempo fora, não estou inteirado da importância ou não que vampiros tenham. (Padoi)
Eu quis saber se me conhece. (Andrea)
Ah, isso! Não, meu anjo. (Padoi)
Andrea cruza os braços.
Eu tenho cara de anjo pra você? (Andrea)
Padoi coloca a mão no tórax e se inclina.
Me perdoe se é ofensivo. (Padoi)
Padoi volta a posição original.
Você gostaria de ter mais poder do que já tem? (Padoi)
Como assim? (Andrea)
Bom, as pessoas se transformam porque não estão satisfeitas em serem apenas humanas. E se você puder ser mais que uma vampira? (Padoi)
E como eu poderia fazer isso? (Andrea)
Padoi estende o pulso.
Compartilhando do meu sangue. (Padoi)
Também vai me dar um pão para comer? (Andrea)
A transformação é simples, como a que te trouxe aqui. (Padoi)
Se soubesse o jeito que me transformaram, não ofereceria isso assim. (Andrea)
Perdoe novamente. (Padoi)
Padoi se aproxima.
Mas posso de fato te dar poder. (Padoi)
E para que eu ia querer mais poder? (Andrea)
Quando eu governar tudo, você vai querer esse poder. (Padoi)
É uma ameaça? (Andrea)
Padoi baixa o braço.
Não tenho quaisquer intenções de lhe ameaçar. Mas as criaturas tendem a ficar descontroladas depois que mordo, ou depois que alguém com meu sangue morde. Vai ser um caos. (Padoi)
Não quero descontrole. (Andrea)
Não há, se for feito do jeito certo. (Padoi)
E por quê não simplesmente fica no seu canto e vive de luxo? (Andrea)
Eu amo o caos. Corre nas minhas veias porque está no meu coração. Na minha alma. (Padoi)
E quem te garante que eu quero o caos? (Andrea)
Não sei o que quer. Mas sei que posso te dar. Eu voltei pessoalmente das portas do inferno. Posso até tirar alguém de lá. (Padoi)
Andrea descruza os braços. Inclina o pescoço. Padoi sorri.
Derik está dormindo. Se vê diante de uma enorme cebola. Se aproxima. Uma camada da cebola começa a cair. Derik corre. A camada cai atrás de si. Olha para trás. Há uma pilha enorme de cebolas, um banco, um pote em cima, uma faca dentro. Derik volta, pega o pote, senta no banco, pousa o pote no colo, tira a faca e pega uma cebola da pilha. Descasca. Pica dentro do pote. Limpa o olho com as costas da mão. Pega outra cebola. Acorda. Olha para Kat.
Algum problema? (Kat)
Será que sonhos recorrentes podem atrapalhar os sonhos de previsão? (Derik)
Acho que não. (Kat)
Vieram buscar Glória já? (Derik)
Não. (Kat)
Ah. (Derik)
Kat senta na cama.
O que tá escondendo? (Kat)
Nada. (Derik)
Kat cruza os braços.
É sério... (Derik)
Eu inventei esse "Nada", Derik. (Kat)
Derik suspira.
Padoi vai vir atrás de Glória. (Derik)
Sabe quando? (Kat)
Não. Só vi que Padoi estava procurando alguém pra ajudar, não sei porque, parece que precisa de sangue de vampir. (Derik)
Já contou isso para alguém? (Kat)
Inês. Pra tomar cuidado, caso alguém se aproximasse. (Derik)
Inês não fez um pacto com Andrea? (Kat)
Mas sai com vampirs às vezes. (Derik)
Kat franze a sobrancelha.
Nossa. (Kat)
Que foi? (Derik)
Acabei de me dar conta de que já existe outra geração além de mim. (Kat)
Derik senta na cama. Kat olha para Derik.
Agora sou eu quem precisa proteger as pessoas. (Kat)
Tecnicamente, são da sua geração. (Derik)
Eu já tava aqui antes. Sou quase da geração anterior. (Kat)
Você vai conseguir. (Derik)
A maioria das vezes que a gente combateu alguma coisa, gente morreu antes da gente poder parar. (Kat)
Mas a gente sempre parou. (Derik)
Kat olha para a janela.
Tem que ter algum jeito melhor de fazer isso. Alguma coisa que a gente consiga parar tudo de ruim, inclusive no meio da raça humana. (Kat)
Acha que a gente consegue consertar tudo? (Derik)
Não sei. Mas não consigo parar de pensar que deveria. (Kat)
Acha que Virgine tem razão no que faz? (Derik)
Kat olha para Derik.
Está caçando gente preconceituosa, dando poder a gente que não teria como se defender antes. (Derik)
Mas tem quem sofra preconceito e use também. (Kat)
Acho que preconceito todo mundo que está nessa sociedade desse jeito, aprendendo o que aprende, tem. (Derik)
Eu disse "use", não "tenha". (Kat)
Derik olha para baixo. Olha para Kat.
Será que um dia as pessoas aprendem a não fazer mais isso? Que a gente devia viver em sociedade, com respeito, e assim todo mundo poderia fazer coisas boas para ajudar as outras pessoas? (Derik)
Não sei. Sinceramente, me parece que as pessoas precisariam ser paradas. Que o único jeito de extinguir o preconceito é morrendo todo mundo que tem, para pararem de ensinar. (Kat)
Mas isso não seria ruim também? (Derik)
Não faço ideia. De verdade que me parece cada vez menos ter outra solução. (Kat)
Rust está andando. Chega a um jardim, em uma construção antiga. Caminha até a construção no centro. Deoclides vem até Rust. Está com roupas muito antigas, um tanto rasgadas, mas limpas.
Oi. Veio me visitar? (Deoclides)
Não, eu... (Rust)
Visitas. Não recebo muitas. (Deoclides)
Eu estou procurando uma pessoa. (Rust)
Mas também, aqui é longe, né? (Deoclides)
Deoclides dá a volta ao redor de Rust.
Faz muito, muito tempo que ninguém aparece aqui. (Deoclides)
Você conhece Etos? (Rust)
Deoclides sorri. Desfaz o sorriso.
Não sei. Esse nome é bonito. (Deoclides)
Deoclides dá outra volta ao redor de Rust.
Você é bonito. (Deoclides)
Deoclides olha para o céu.
Eu gostei de um homem bonito uma vez. (Deoclides)
Deoclides olha para Rust.
Mas faz muito, muito tempo. (Deoclides)
Deoclides olha para um ponto no jardim.
Lembro dele como se fosse ontem! (Deoclides)
Deoclides olha para Rust.
Mas aí eu não lembro mais. (Deoclides)
Deoclides dá mais uma volta ao redor de Rust.
O nome dele era bonito como esse nome bonito que você, moço bonito, acabou de dizer. (Deoclides)
Deoclides olha para o céu.
Mas, de novo, eu não lembro esse nome bonito que você acabou de dizer. (Deoclides)
Rust olha para a entrada da construção. Etos vem até Rust. Deoclides olha na direção de Etos.
O que você tá vendo aí? É a minha casa? Ou um espírito? (Deoclides)
Deoclides olha para Rust.
Eu sei que tem espíritos aqui, por que mexem nas coisas. (Deoclides)
Não diz nada. Só me acompanha. (Etos)
Rust olha para Deoclides. Etos anda em direção a casa, Rust segue. Deoclides vai junto. Para. Acena com o braço.
Tchau, moço bonito! (Deoclides)
Rust olha para Deoclides, ainda acompanhando Etos. Volta a olhar para Etos.
Não sei se é um castigo pelo que fez, se um feitiço de Loz como vingança, ou por ter tentado falar comigo, ou em algum momento que o feitiço em Loz possa ter perdido o efeito. Pode ser até um efeito colateral do feitiço que Deoclides colocou. (Etos)
Rust olha para Deoclides. Deoclides dança. Volta a olhar para Etos.
Já te falei de Loz, não? (Etos)
Sim. Era Deoclides? (Rust)
Sim. (Etos)
Como viveu tanto? Você nunca tinha me dito... (Rust)
Então já sei até quando não vivi. (Etos)
Rust engole seco.
Relaxa. Eu ainda estou aqui nessa Realidade. Graças a Trinity. (Etos)
Etos para e olha para Rust. Rust para.
E Valesca se foi, com ou sem a gente estar junto. (Etos)
Etos continua andando. Rust segue.
Além de viver tudo isso, Deoclides não tem mais sanidade, o que pode ser do que aconteceu. E, por algum motivo, não me vê, não me ouve. O que pode ser feitiçaria ou de fato efeito da falta de sanidade. (Etos)
Etos entra na construção. Caminha por uma sala grande com algumas mesas baixas no chão. Sobe uma escadaria. Por um corredor, entra em uma sala com grandes janelas. Há estantes com potes e vidros com líquidos verdes, amarelos, alguns vermelhos. Uma estante com livros. Três mesas, uma delas vazia, com amarras. Uma com diversos instrumentos. A última tem alguns livros. Etos vai até essa última e se senta. Há muita poeira em tudo.
Que lugar é esse? (Rust)
Etos aponta a mesa com amarras.
Loz já me curou nessa mesa. (Etos)
Pra que as amarras? (Rust)
Nem todo feitiço de cura é indolor. (Etos)
Achei que haveria mais livros. (Rust)
Quero levar tudo isso para Derik. (Etos)
Estão bem velhos, pode ser que desfaçam. (Rust)
Não os livros de Loz. (Etos)
Etos baixa a cabeça.
Eu quis algumas vezes mostrar isso a Murilo. Sempre achei que teria todo o tempo do mundo pra isso. (Etos)
Etos olha para Rust.
Mas hoje não te trouxe aqui para carregar os livros. A gente pede ajuda de pégasus para ver isso quando acharmos o que Lish me pediu. (Etos)
Já sabe que Lish recuperou toda a memória? (Rust)
Etos baixa a cabeça.
E sabe inclusive porque. (Rust)
Etos suspira e olha para Rust.
Lish disse que você falou uma palavra, Izikaum. (Etos)
Rust franze a sobrancelha.
Sim. (Rust)
Lish se lembra de Loz ter já falado algo sobre isso. (Etos)
Rust desfranze a sobrancelha.
Acha que tem algo nos livros? (Rust)
Só tem um jeito de descobrir. (Etos)
Andrea abre os olhos. Está sob a água. Senta. É uma banheira. Padoi vem até o banheiro. Senta-se em um banco ao lado da banheira.
Funcionou? (Andrea)
Sim. Agora você é uma das minhas crianças. (Padoi)
Você sabe quem eu sou, não sabe? (Andrea)
Padoi franze a sobrancelha.
Você realmente não sabe. (Andrea)
Por que eu deveria saber? (Padoi)
Não sabe que eu tenho ligações com a MEAK? (Andrea)
Padoi desfranze a sobrancelha.
Veio atrás de mim de propósito? (Padoi)
Padoi sorri.
Tinha a ideia de me derrubar, mas acabou vendo que sou eu quem vai vencer no final. (Padoi)
Sou Andrea. Se você estava com Zenon, talvez tenha lhe falado de mim. (Andrea)
Padoi desfaz o sorriso. Sorri novamente.
Você está com as crianças. (Padoi)
Estão em segurança. Mas, pelo que soube, não são de seu interesse. (Andrea)
As coisas mudaram. Preciso acordar Melody. (Padoi)
Andrea franze a sobrancelha.
Você já viu Melody em sua... Forma natural? (Padoi)
Já vi Beleno. Assusta mais que pégasus comuns. (Andrea)
O que Melody tem? (Padoi)
É atlante. Assim como Edmont, e Beleno, por consequência. (Andrea)
Acha que todo mundo que é atlante é assim? (Padoi)
Por que a pergunta? (Andrea)
Padoi olha para cima.
Eu nunca vi coisa mais perfeita na minha vida. (Padoi)
Padoi olha para Andrea.
E olha que minha vida foi longa. (Padoi)
Qual foi seu interesse em Zenon? Você parece ter algum amor a alguma coisa, Zenon só queria destruir. (Andrea)
Padoi se levanta.
Eu não tinha conhecimento disso. (Padoi)
Andrea levanta da banheira.
Não me disse que já não era apenas uma vampira. (Padoi)
Como assim? (Andrea)
Seus feitiços. Dá pra sentir, deixam uma marca em você. (Padoi)
Se você não consegue reconhecer uma bruxa, vindo de tão longe no tempo... (Andrea)
Eu não estou em plena forma. O feitiço que fizeram, pra me prender, ainda não saiu por completo. (Padoi)
Por isso precisa de mim. (Andrea)
Preciso de alianças. (Padoi)
Padoi sorri.
E foi uma feliz coincidência que estivesse me procurando também. (Padoi)
Eu já protegi um assassino. (Andrea)
Bom, a gente vive de matar. (Padoi)
Era uma criatura cruel. Se divertia com o sofrimento alheio. (Andrea)
Eu apenas amo o caos. Existe uma beleza tão maior em criaturas verdadeiramente lutando pela sobrevivência, sem segundas intenções ou fingindo que querem o bem comum! Seres humanos não são criatura boas. (Padoi)
E Melody? (Andrea)
Você mesmo disse. Não é humana. E não existe nada mais caótico do que o que vi aquela noite, nos olhos da criatura mais perfeita que já existiu... (Padoi)
Andrea sai do banheiro. Padoi segue.
Onde vai? (Padoi)
Eu preciso me trocar. (Andrea)
Padoi vai ao guarda-roupas e abre. Pega uma camiseta e uma calça. Entrega a Andrea.
Tentei pegar o mais parecido possível com o que vestia. Não olhei a roupa de baixo, não seria educado com minha primeira aliança. (Padoi)
Padoi vai em direção a porta.
Vai se alimentar? (Andrea)
Padoi para. Olha para o frigobar. Olha para Andrea.
Vou ver se acho algo discreto. Zenon me disse que, se não for discreto, logo me acham. Umas coisas chamadas celulares e, não sei como, tinha algo a ver com as nuvens. (Padoi)
Entendo. (Andrea)
Quer que eu lhe traga alguma coisa? (Padoi)
Não é uma boa ideia trazer alguém aqui, a gente vai continuar com o quarto, não? (Andrea)
Ah, não me referia a comida. (Padoi)
Daxlidan. (Andrea)
Padoi franze a sobrancelha.
Não sabe o que é, sabe? (Andrea)
Não que eu tenha ouvido falar. (Padoi)
Serve para várias coisas. (Andrea)
Vou procurar me informar. (Padoi)
Padoi sai.
Será que consegue mesmo trazer alguém do inferno? (Andrea)
Kat está na sala. Olha para Glória. Trinity entra.
Achei que já teriam vindo buscar. (Trinity)
Não tenho mais tanta certeza que transporte comum não seria mais rápido. (Kat)
Voar com peso é mais complicado. (Beleno)
Trinity e Kat olham para a janela. Beleno entra.
Não é mais fácil você entrar pelo telhado? Provavelmente chama menos atenção do que "olha aquele pássaro, é maior do que a janela!". (Trinity)
Você conseguiria levar Glória para as ilhas? (Kat)
Não é melhor eu ficar por aqui? (Beleno)
Derik sonhou que Padoi vai tentar pegar Glória. (Kat)
Derik vem até a sala.
A gente não pode deixar isso. (Derik)
Kat franze a sobrancelha.
Pera. Por quê? (Kat)
Bom, a gente não sabe o que Padoi pode fazer. (Derik)
Nada. Glória tá sob proteção com o feitiço. (Kat)
Kat, não tá querendo usar sua irmã de isca, tá? (Trinity)
Kat desfranze a sobrancelha. Olha para Glória.
Eu nunca faria isso. (Kat)
Kat senta no sofá.
Que foi? (Beleno)
Não tinha me dado conta tão claramente que Glória é o que sobrou de Mel. (Kat)
Beleno engole seco.
Tecnicamente, você também é. (Derik)
Kat olha para Derik. Olha para Trinity.
A pergunta, "Por quê?", era qual o motivo de Padoi vir atrás de Glória. (Kat)
Inês entra na MEAK. Pousa uma mochila no sofá.
Andrea desapareceu. (Inês)
Tentou celular? (Derik)
Tá dando fora de área. (Inês)
Zenon sabia que Andrea tava protegendo as crianças. (Kat)
Beleno agita as asas.
Calma, Andrea é imortal no momento! (Inês)
Mas ainda sente dor. (Kat)
Derik vai para o quarto e fecha a porta.
Fábio voltou das ilhas? (Kat)
Não. (Beleno)
Etos e Rust tão longe. (Trinity)
Beleno, deve ser fácil pra você achar Andrea, mas vou avisar Lish também. (Kat)
Beleno sai pela janela.
Vai ficar, para proteger Derik e Glória? (Trinity)
Não, vou com você. (Kat)
Kat olha para Inês.
Avisa Lish, e protege Derik. (Kat)
Mas eu só sei tacar fogo! (Inês)
E Derik sabe voar. (Kat)
Mas e Glória? (Trinity)
Não me pergunta como, mas tenho certeza que não vai sofrer a menor avaria no meio no fogo. (Kat)
Kat pega um punhal e uma estaca, coloca na cintura e sai.
Não esquece de acionar o alarme de incêndio! (Kat)
Não tem como saber se... (Trinity)
Eu tentei usar fogo para acordar uma das crianças. Realmente não faz nada. (Inês)
Inês olha para a porta.
Mas não tinha como Kat saber disso. (Inês)
Trinity suspira. Sai. Inês pega a estátua de Glória, puxa até a porta do quarto. Derik abre a porta. Inês puxa a estátua para dentro. Derik fecha a porta.
Padoi está andando pela cidade. Passa pelo beco onde achou Andrea. Fareja o ar. Olha para a direção de onde veio. Pega um cartão do bolso. É da MEAK. Olha para Cláudio, que mexe no celular. Se aproxima e olha para a tela. Cláudio se afasta.
Isso é invasão de privacidade! (Cláudio)
Não tem nuvem no céu agora, isso funciona sem nuvem? (Padoi)
Cláudio franze a sobrancelha.
Acho que até melhor... (Cláudio)
Ah! A nuvem atrapalha. Acho que entendi errado. (Padoi)
Padoi olha para cima.
Então, em dia de tempestade, não tem problema. (Padoi)
Cláudio balança a cabeça para os lados, vira para ir embora, Padoi segura seu braço.
Eu preciso de ajuda. Me disseram que dá para ver tudo nesse pedacinho de metal. Dá até para falar com as pessoas! (Padoi)
Cláudio suspira.
O que precisa? (Cláudio)
Padoi mostra o cartão.
Você sabe onde fica isso? Ou conhece alguém que sabe? (Padoi)
Cláudio olha o cartão. Pega o celular e começa a digitar.
Não exatamente alguém... Tá mais pra algo. (Cláudio)
Cláudio espera alguns segundos. Olha para Padoi.
Continua seguindo essa rua, vira na terceira a direita, depois a primeira esquerda. Aí vai estar na rua que quer. (Cláudio)
Padoi abaixa a cabeça e levanta.
Você não acha melhor procurar a polícia? Essa coisa aí parece charlatanismo... (Cláudio)
Tem coisas que a polícia não conhece. Como presente pela sua boa ajuda, posso lhe oferecer poder e um lugar ao meu lado. (Padoi)
Ah... Foi mal... Eu não curto. (Cláudio)
Cur... tir... (Padoi)
Ah, cê não é daqui, né? Deve ser do interior ou coisa assim... Eu sou hétero. Nada contra, eu acho legal as pessoas poderem fazer o que quiserem, ficar com quem amam, do jeito que eu me atrapalho com mulher, talvez eu até me desse melhor com homem... Ou tomasse mais fora ainda... Enfim... (Cláudio)
Eu realmente não entendo o que diz. (Padoi)
Olha, segue sua vida, seja feliz. (Cláudio)
Cláudio segue para outro lado. Padoi acompanha com os olhos.
Você tem um pouco de caos em você. Talvez eu te procure depois, ao invés de deixar se afogar junto com o resto. (Padoi)
Padoi segue na direção que Cláudio apontara.
Padoi olha para o prédio da MEAK. Vê asas descerem no telhado. Vai para a entrada. Passa. Olha para o elevador. Balança a cabeça para os lados. Sobe as escadas. Chega ao andar da MEAK. Bate na porta. Silêncio. Abre a porta. A sala está vazia. Senta-se no sofá. Inês abre a porta do quarto. Sai. Fecha a porta.
Posso te ajudar? (Inês)
Estou procurando Melody. Nos conhecemos. (Padoi)
Mel... Não está mais entre nós. (Inês)
Uma pena ouvir isso. Está onde? (Padoi)
Inês franze os olhos.
Eu quis dizer que Mel morreu. (Inês)
Padoi levanta.
Não. Não morreu. (Padoi)
Morreu sim. (Inês)
Não pode ser... (Padoi)
Padoi olha para o chão. Olha para Inês.
Entendo porque estão mentindo. Eu estava tentando machucar Melody antes. (Padoi)
Padoi se aproxima de Inês. Inês dá passos para trás.
Eu não quero mais machucar Melody. Só quero acordar. Você não viu o que vi. (Padoi)
Me disseram que Mel perdeu o controle. (Inês)
Padoi sorri.
Controle. É assim que vocês chamam a prisão onde Melody estava? (Padoi)
Prisão é não conseguir decidir seus próprios atos porque seus instintos fazem isso por você. (Inês)
Só quero trazer Melody de volta. Zenon me disse que está dormindo. (Padoi)
É mentira. Mel morreu, e a culpa é sua. (Inês)
Inês faz fogo com as mãos. Padoi pega Inês pelo pescoço e joga atrás do balcão. O fogo de suas mãos se apaga, mas não antes de pegar em folhas que caíram atrás do balcão com Inês. Padoi abre a porta do quarto. Andrea está na janela. Olha asas levando uma estátua vermelha, com um pássaro dourado ao lado.
Você não estava do meu lado, estava? (Padoi)
Devia treinar melhor seu fingimento. (Andrea)
Andrea vira para Padoi.
Ficou bem óbvio que precisava de mim, do jeito que me tratou. (Andrea)
É? E por quê acha que preciso de você? (Padoi)
Sangue. A parte que você está fraco por causa do feitiço de Mel percebi que é verdade. Mas não consegue trazer ninguém do inferno. (Andrea)
Mesmo? (Padoi)
Teria trazido Zenon. (Andrea)
Mas posso mandar alguém para lá. (Padoi)
Padoi mostra os dentes. Vai em direção a Andrea, Andrea chuta, pega uma estaca, crava no peito de Padoi. Padoi cai de joelhos. Cai para trás, no chão. Andrea olha. Se aproxima. Padoi segura em seus braços, inverte e fica em cima de Andrea.
Meu fingimento melhorou agora? (Padoi)
Andrea tenta empurrar Padoi. Padoi ri.
A propósito, obrigado pelo sangue. Muito melhor que de Zenon. Talvez porque não estava na geladeira, e pude me fartar de tudo de uma vez. Aliás, nem tudo. Que tal corrigir isso? (Padoi)
Padoi morde Andrea. Inês acorda na sala. Arregala os olhos. Levanta, vai ao corredor, aciona o alarme de incêndio. Volta para dentro. Padoi está na sala. Inês faz fogo com as mãos novamente, Padoi encosta Inês na parede, junta os pulsos no alto. Morde Inês. Inês tenta aumentar o fogo. Padoi vai bebendo o sangue. O fogo vai diminuindo nas mãos de Inês, apesar de aumentar no cômodo. A cabeça de Padoi é puxada para trás. Padoi solta Inês, que cai no chão. Padoi voa pela janela, por cima de diversos prédios, caindo há algumas quadras dali. Inês vai até o quarto. Se aproxima de Andrea. O corpo de Andrea está todo cinza. Inês toca, o corpo se desfaz inteiro, caindo as cinzas no chão, fora e dentro da roupa. Uma lágrima cai de seus olhos. Inês arregala os olhos. Vai até a sala. O fogo foi extinto. O extintor é pousado no chão, em frente ao balcão. Edmont olha para Inês. Seus olhos são duas bolas de sangue. Aos poucos o sangue se concentra no meio, fica preto, clareia. Os olhos de prata.
Pelo menos dessa vez eu conseguir te salvar. (Edmont)
Edmont sorri. Desfaz o sorriso, fecha os olhos e solta o corpo. Inês vai até Edmont e segura, ajudando a descer ao chão.
Edmont está no sofá maior. Inês sentou-se na beira. Kat entra, batendo a porta na parede, se aproxima de Edmont. Passa a mão no rosto de Edmont.
O que houve? (Kat)
Parece que resolveu atender seu pedido. (Inês)
Andrea mandou mensagem. Parece que Mel fez algum feitiço pra prender Padoi, não saiu só mordendo e achando que ia rolar. (Kat)
Mas quem teve a ideia de colocar um feitiço para proteger os corpos foi você. (Inês)
Tem umas coisas acontecendo. Coisas que eu não sei de onde vêm. Não sei se são resquício de algum sonho. (Kat)
Então você pode ter feito isso para ajudar no feitiço que Mel teria feito? (Inês)
Eu não sei. O que eu sei é que achei que tinha jogado três corpos no lago. (Kat)
Não seria a primeira vez que Edmont volta da morte. (Inês)
Inês olha para o quarto. Kat olha para Inês.
Andrea? (Kat)
Inês baixa a cabeça.
Quer fazer algo com as cinzas? (Kat)
Entregar para Beleno. (Inês)
Podemos fazer isso. (Kat)
Kat olha para Edmont. Lish entra na sala.
Se Mel fez um feitiço para prender Padoi, com certeza pelo menos um terço do efeito já era. (Kat)
O que a gente vai fazer? (Inês)
Aproveitar que existe alguém presente que gerou uma linhagem vampírica. (Lish)
Inês olha para Lish. Olha para Kat.
Rust diz que pode ter sido Valesca. Que acha que por isso mataram Valesca. (Kat)
Só dá pra descobrir de um jeito. (Lish)

Dara Keon